O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prossegue afirmando que é cedo para imaginar que o balanço final das eleições nos municípios brasileiros, seja considerado um parâmetro definitivo para formular juízos sobre a sucessão presidencial em 2010. A análise do presidente não está de todo equivocada, embora haja muita divergência entre políticos e analistas que avaliam o quadro a partir de múltiplas probabilidades.

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É fácil constatar que em política as realidades são absolutamente contingenciais, o que levou uma felpuda raposa mineira a cunhar insuperável definição do processo ao compará-lo com as nuvens que aparecem sempre com um formato diferenciado, cada vez que alguém olha na sua direção.

Assim sendo, ninguém é capaz de prever em minúcias o que deverá ocorrer ao longo do período que nos separa de 2010 e, quanto mais, qual será a nova conjunção político-partidária sancionada pela maioria dos eleitores para governar o País nos quatro anos seguintes. Sequer é possível sustentar a idéia de que a ampla coligação partidária liderada pelo presidente Lula conseguirá suportar a pressão pela busca de caminhos próprios, especialmente de parte do PMDB, que elegeu duas vezes mais prefeitos municipais que o partido colocado em segundo lugar. Um sério obstáculo a ser transposto pelo principal avalista da coligação, o próprio Lula, é convencer a totalidade dos apoiadores quanto à viabilidade da virtual candidatura única da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Sem experiência política comprovada, Dilma enfrentou os primeiros testes de popularidade em exposições públicas nas campanhas de vários candidatos do PT à prefeitura de seus municípios. Ao que consta, em nenhuma dessas aparições pôde se sentir influência positiva da ministra na votação dos candidatos do partido. Não é novidade que algumas alas representativas do petismo já manifestaram, mesmo com o cuidado de não melindrar o presidente da República, discordância com a candidatura de Dilma que além da breve militância no partido (era do PDT), também é relativamente pobre em termos de empatia e carisma, características pessoais indispensáveis em se tratando de disputa tão pesada quanto uma eleição presidencial. Diante disso, os críticos não descartam o recrudescimento de ações engendradas pelo remanescente da ortodoxia petista, mesmo sendo nesse momento uma tendência desprestigiada no aparelho partidário, com a finalidade de realçar os riscos do fracasso eleitoral resultante da insistência de uma candidatura não digerida pela massa.

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Em paralelo, o fortalecimento do PMDB, já denominado de “noiva das eleições de 2010”, passou a ocupar a invejável posição de moeda forte e a oferecer aos interessados, com efeito, o mais precioso dote de todos quantos foram conferidos aos partidos pelas urnas eletrônicas. A questão é saber se o PMDB continuará perfilhado à aliança em torno do presidente Lula, ou se daqui em diante caminhará com as próprias pernas, estimulado a levantar a bandeira do candidato genuíno pelo surgimento de líderes como o governador Sérgio Cabral Filho (RJ) e o ministro Geddel Vieira Lima, ávido em ocupar o posto vago de vice-rei da Bahia, grande colaborador na reeleição do prefeito João Henrique em Salvador e na conquista de várias cidades importantes no interior.

A adesão do PMDB ao esforço que culminou com a reeleição do democrata Gilberto Kassab, construído pelo morubixaba Orestes Quércia, acaba de ter sua exegese formulada pelo articulador do esquema: o PMDB não terá candidato à presidência em 2010, “o que seria ideal, por falta de um nome que galvanize o partido. Sem esse nome, vai defender o apoio à candidatura de José Serra”. A retribuição seria o apoio a Quercia na eleição para o Senado. Nada a estranhar, pois na eleição de 2002, a deputada Rita Camata (ES) integrou a chapa tucana como candidata a vice-presidente. O guizo no pescoço do gato, entrementes, será convencer o partido de que sua força eleitoral tem pouca serventia e o mais indicado é continuar na trilha dos subalternos.

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