Ivan Schmidt

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Assim como jamais teve outra ocupação senão o exercício de sucessivos mandatos desde a eleição para a Assembléia Legislativa em 1982, o governador Roberto Requião passou a exercer domínio absoluto sobre o diretório regional do PMDB desde 1990, data de sua primeira eleição para o governo estadual. Para conferir certo detalhismo documentário à assertiva, poder-se-ia mencionar que o império requianista sobre o enclave paranaense do ?MDB velho de guerra?, miragem existente apenas nesses pagos, começou pouco antes da eleição, quando o então titular da Secretaria de Desenvolvimento Urbano na gestão Alvaro Dias passou como um trator sobre os demais postulantes à indicação para a candidatura ao governo, entre os mais notórios, os secretários Rubens Bueno e Luiz Carlos Hauly, além do senador Leite Chaves.

Os que conviveram, à época, com políticos chegados a Alvaro, decerto estão lembrados do codinome usado à sorrelfa para designar o ex-prefeito de Curitiba – Khadafi – tendo em vista sua insaciável vocação para a política como profissão e a tática demolidora usada para atropelar os ?amadores? que ousaram toldar a água em que bebia.

É sabido que o próprio Alvaro não quis abrir uma brecha no seu bloco político, neutralizando a ofensiva de Requião, ou como preferem alguns analistas, bem mais por conhecer melhor que ninguém o combalido potencial dos secretários dispostos a disputar a candidatura na convenção regional. Um dos resultados imediatos foi o irremediável afastamento do secretário Rubens Bueno, um dos aliados mais leais do então governador.

Mais tarde, Alvaro viu-se constrangido a permanecer no Palácio Iguaçu até o final do mandato, pela incógnita suscitada quanto à viabilidade de conjuntura favorável ao candidato à sucessão, ao se tornar pública a composição do secretariado escolhido pelo vice-governador Ari Queirós, no qual a hermenêutica governista de pronto identificou uns quantos representantes do estrato que se convencionou chamar de ?filhos do mal?. Outra pesada defecção na carreira alvarista.

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Voltando ao tema proposto no início, Requião teve somente de aguardar a passagem de Mário Pereira pelo governo, período em que fez campanha e se elegeu senador, para desembarcar com armas e bagagens no diretório regional do PMDB – a data mais provável é 1995 – sobre cuja instância exerce um mandonismo capaz de fazer inveja aos ?coronéis? que tanto vergastou com sua incontinência verbal. Basta citar, para tornar consistente o argumento, José Sarney, Jader Barbalho e Orestes Quércia, a quem na estréia do primeiro governo tentou incinerar mediante um insólito disque-denúncia, que fontes palacianas do contexto juram não ter recebido sequer uma ligação.

Durante o mandarinato de Requião no PMDB, ademais da invisível atuação do partido em campanhas de arregimentação de militantes, renovação de quadros para a vida pública e, sobretudo, na aplicação institucional dos ideais que dignificaram sua presença no arco político brasileiro, a agremiação foi literalmente varrida da governança municipal, perdendo prefeituras importantes como Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu, Paranaguá, Umuarama, Campo Mourão, Toledo e Guarapuava, para não falar da indigência crônica nas eleições para a Prefeitura de Curitiba.

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Bastaria avaliar a insidiosa paralisia imposta ao partido pelo estilo autoritário de seu dirigente máximo, para compreender as causas da magreza anoréxica dos votos que deram a Requião o terceiro mandato, mas transformaram em incômodo fardo a autêntica vitória de Pirro.

Nas eleições municipais do próximo ano, o PMDB enfrentará o mesmo dilema de ocasiões anteriores, com a certeza de que as dificuldades deverão se aprofundar pela flagrante ausência de lideranças afirmativas, resultado direto da infertilidade uterina do partido. Na capital está o exemplo gritante da debandada de antigos guerreiros: os nomes com maior exposição e dados como prováveis candidatos, o secretário Rafael Greca e o reitor da Universidade Federal do Paraná, a contrapelo do discurso de Requião, jamais foram vistos nas trincheiras peemedebistas portando um reles trabuco enferrujado.

Ivan Schmidt é jornalista.