Ivan Schmidt

continua após a publicidade

Leitores há e tenho razões para crer que é bastante elevado o contingente de solertes decifradores da política como espetáculo (por óbvio, entre eles os incautos freqüentadores deste espaço), a ponto de alguém sentir-se estimulado a desencavar um tico de ânimo escondido na alma para continuar rabiscando sobre as bufonerias oferecidas, a nós, pobres mortais, pela maioria das criaturas que se imaginam distinguidas pela prerrogativa superior de pertencer às chamadas esferas públicas.

Território apropriado, como nos induzem a pensar os apontamentos do ácido jornalista norte-americano H.L. Mencken (1880-1958), para a evolução de enfatuados, arrogantes e, pior, mentirosos. Então, quando se aprecia a conduta de determinados agentes públicos, para usar um termo corrente, o balanço inevitável e espontâneo se iguala ao formulado pelo homem demitido por todos os grandes jornais publicados nos Estados Unidos. A saber: ?Mentir é o produto da ânsia inconsciente de realizar tais visões, e se a censura – a consciência – impede que a mentira seja expressa em palavras, ela sairá de qualquer jeito, por atos menos ou mais plausíveis?.

Mencken, por mim citado inúmeras vezes em pensatas anteriores, antes que alguém o tenha por louco de pedra, reafirmo, era desabusado iconoclasta e nenhum pudor guardava em regurgitar diante do comportamento dos políticos mais emproados de seus áureos tempos de repórter investigativo, quando (quase) todas as matérias que escreveu fizeram tremer as estruturas das instituições democráticas do país hoje presidido por George W. Bush, a quem decerto já teria transformado em pó de traque.

É, portanto, compreensível que tenha concluído: ?Para um homem habituado a buscar e dizer a verdade, o mundo não é um dos lugares mais agradáveis. Este homem será sempre impopular e, com freqüência, sua impopularidade poderá ser tão excessiva que até lhe constitua um risco de vida?. Não há como discordar da visão microscópica daquele que o The New York Times considerou, em 1926, ?o mais poderoso cidadão privado na América hoje em dia?, sobretudo na apreciação que fez sobre o defensor da verdade, com a ressalva de que a crítica se referia à realidade de seu país, onde, proclamava, a busca da verdade sempre será vista com um olho bilioso: ?Se tenta dizer a verdade sobre o governo, os agentes deste tratam de silenciá-lo e puni-lo?.

continua após a publicidade

Qualquer semelhança é válida com Francenildo dos Santos Costa, o jovem que levou literalmente à lona o ex-ferrabrás da economia, Antônio Palocci, hoje destroçado do ponto de vista moral por uma série de denúncias de envolvimento em desvios de recursos públicos no exercício do mandato de prefeito municipal de Ribeirão Preto, e indiciado pela Polícia Federal pelos crimes de quebra de sigilo bancário do caseiro, formação de quadrilha e denunciação caluniosa. Uma avalanche mortal sobre carreira que se julgava digna de referência e encômios, apesar de alguns círculos do Partido dos Trabalhadores e do próprio governo terem com o então ministro acerbas divergências por sua inquebrantável interpretação dos manuais de Wall Street.

Mencken, é bom lembrar, fazia observações do cenário de seu país e delas tirava seu material de reflexão, o que não impedirá alguma analogia com os tempos atuais da tragédia brasileira. Prefiro, entretanto, no que me diz respeito, discordar em gênero e número da afirmativa a seguir: ?Os homens que os americanos admiram com maior fervor são os mais atrevidamente mentirosos; e os que eles mais detestam são os que tentam dizer-lhes a verdade. Seria mais fácil para Galileu tornar-se papa do que presidente dos Estados Unidos?. Penso que em nosso País não haveria espaço para tamanha falta de tato e impropriedade política. E, ato contínuo, forneço as razões: nosso povo não cultiva a capacidade de puxar o tapete dos que juram nada ouvir, nada ver ou nada saber. Coisas da brasilidade, ora direis.

continua após a publicidade

Chego ao final e desculpo-me por ter roubado o tempo do conspícuo leitor. Ainda assim dou a palavra a Mencken: ?Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive?, admitindo que nesses anos todos fui convencido que a frase é rigorosamente apropriada a quaisquer ideologias. Por isso é cada vez mais lúcido o sofisma que ?a democracia é a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos?, ou ?pode ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano?.

Velho e corajoso Mencken, os que vão viver te saúdam!

Ivan Schmidt é jornalista.