A mediocridade solitária

Os eleitos pelo sufrágio universal, uma conquista das massas que atualmente vale pouco mais que um figo podre, só por isso têm o direito de se erigir a si próprios uma casta superior e inatingível? A resposta é de cada um dos leitores deste quadro, mas é tão absurdamente lógica que me dou por satisfeito se os que divergirem do que suponho ser o senso comum da maioria esmagadora chegarem a 10%, que me arrisco a estabelecer como a somatória dos que insistem em crer na teoria da terra plana.

Observando as atitudes de alguns desses eleitos não teremos motivos para discordar de Simone de Beauvoir, que no longínquo ano de 1955, quando muitos de nós sequer havíamos nascido, embora usando a expressão no sentido de identificar o estrato social conhecido como elite, constatava com propriedade que ?os eleitos excluíram do seu universo espiritual o resto da humanidade?.

Tendo falado em elite e, a bem da verdade, copiando o termo segundo o raciocínio desenvolvido pela mulher de Jean-Paul Sartre, admita-se que os que tiveram o privilégio de galgar a cumeeira da pirâmide social – os legítimos bafejados pelo berço de ouro ou pelo sobrenome heráldico – não fazem a menor questão de disfarçar o tédio que lhes assoma sempre que tomam contato, mesmo por mera contingência, com os ?eleitos? pelas classes populares.

E esse desprezo significa para a maioria dos que subsistiram ao fragor do ostracismo, amarrados como náufragos à tábua de salvação atirada ao abismo na forma dos votos obtidos sob a pressão do cabresto, mágoa mais corrosiva que o esquecimento puro e simples. Não seria impertinente enfatizar que para muitos desses novos Pirros, ?vencedores? que remoem sentimentos de frustração e remorso ante o vácuo absoluto de argumentos convincentes para explicar a vitória, realidade mais contundente é dar de cara com uma verdade ainda mais vexaminosa: não são os melhores que ocupam os primeiros lugares.

Simone de Beauvoir dizia que esse tipo de indivíduo não goza relação autêntica senão com seu próprio eu: ?Todo fim exterior permanece estranho a ele; se busca algum fim, não é porque seja objetivamente solicitado por este, mas por um capricho subjetivo?. Sábias palavras que permitem agregar fórmulas ainda mais explícitas na fatura de nosso juízo de valor sobre determinadas personalidades. É enfadonho afirmar com tanta convicção, mas ?o desprezo pelos fins objetivos se manifesta também na mitologia do chefe?, sobretudo porque essa é uma invenção da direita. Contudo, o resultado mais aziago é que quem se deixa encandear pela arrogante prerrogativa da supremacia acaba cedendo à tentação de se tornar ditador.

Ouçamos Simone: ?E, sendo ditador, inventa uma causa, pois precisa de um pretexto para se manifestar. Mas, na realidade, ele é indiferente a todos os partidos, alheio ao seu próprio país e ao mundo inteiro. A ditadura só lhe serve, afinal, para exaltar a nobreza de sua alma?, ademais de transformá-lo quase sempre num medíocre solitário. ?Não tendo nenhum igual, difere dos outros mais do que qualquer outro, é mais ele mesmo. E é precisamente daí que vem a sua autoridade: seus partidários o obedecem não porque tenham em conta os fins objetivos que ele persegue, mas porque sentem a ascendência da sua personalidade. Como o Senhor, pelas mesmas razões, ele reclama uma adesão incondicionada em nome de uma certa Graça que o habita?.

?Combater e destruir a reputação dos homens célebres era sua paixão dominante?, testemunhou a respeito de Marat o memorialista Brissot, num retrato recolhido pelo filósofo Cioran. Tal é o comportamento de muitos ainda agora. Marat, que era escritor, ?não gostava de ninguém, não acreditava nem um pouco na virtude; só amava a si mesmo?, como tantos que pretendem maior sublimidade que os deuses do Olimpo.

Como certas figurinhas domésticas, Marat era chegado a uma boa pilhéria, como no dia em que ameaçou dar um tiro na cabeça ao pé da tribuna da Convenção, embora a pistola estivesse descarregada. Conclui Brissot: ?Embora desafiasse a terra inteira, nunca suas fanfarronadas chegaram a me impressionar?.

Vale lembrar a sagacidade intelectual de José Guilherme Merquior, mesmo em transcrição livre: há muitos que dão mais valor ao esboço que à obra acabada.

Ivan Schmidt é jornalista.

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