Todas as suspeitas que jornalistas investigativos levantaram durante a segunda metade do século passado, no tocante à ingerência que o governo norte-americano exerceu sobre a América Latina, mediante organismos específicos como a CIA e o FBI, em ações de espionagem e no que o jargão nitidamente intervencionista denominava de ?contra-revolução?, estão comprovadas por documentos oficiais finalmente liberados à consulta pública, em Washington.
Depois de tantos anos, não houve a menor surpresa na revelação que o estado militarista engendrado pelo Pentágono e nutrido pelo complexo industrial-militar tentou eliminar fisicamente o ditador Fidel Castro, sem obter sucesso. Aliás, esse fracasso apenas confirma a suspeita alimentada por muitos sobre a espantosa inabilidade dos agentes selecionados para algumas das missões mais delicadas dos referidos órgãos.
Para conhecer o lado sombrio do caráter de Tio Sam, é suficiente citar a inauguração da Escola das Américas em Fort Gulick, na Zona do Canal do Panamá, em 1949, com a finalidade de ministrar cursos de treinamento em espanhol e português para oficiais das Forças Armadas especialmente designados pelos governos de todos os países do continente. Quando os oficiais regressavam para os quartéis de origem, estavam imbuídos de tal fervor contra qualquer interferência civil que a instituição passou a ser conhecida como a ?escola dos golpes?.
Também não houve surpresa quando ficou patente a ?colaboração? dos Estados Unidos para o desfecho do golpe militar de 1964, responsável pela derrubada do presidente João Goulart e a instauração do regime de exceção que se prolongou por vinte anos. A figura exponencial da intervenção norte-americana em assuntos internos da política brasileira foi o então embaixador Lincoln Gordon.
Ao assumir o posto, o ex-professor de Harvard foi subestimado pela maioria dos integrantes do movimento popular, dentre eles o jovem repórter Fernando Gabeira. Segundo A.J. Langguth, em A face oculta do terror (Círculo do Livro, SP), a princípio Gordon foi recebido como ?apenas um acadêmico, um tipo que se punha a tirar baforadas do cachimbo para não dar a perceber o quanto estava confuso e perplexo?.
Tempos depois, porém, caiu a máscara do protótipo do intelectual e aos olhos de todos sobrenadou o personagem que esteve ?no centro de um complô para derrubar o governo da quinta maior nação do mundo?, acrescentou Langguth. O principal assessor militar do embaixador norte-americano era o general Vernon Walters, que remetia minuciosos informes ao Pentágono dando conta da movimentação de Jango e seus operadores. O primeiro a ler os papéis era o secretário da Defesa, Robert MacNamara, que os discutia com o pessoal da Agência de Informações do Departamento de Defesa, convicto de que os comunistas exerciam poderosa influência sobre o presidente brasileiro.
Walters mantinha íntimo contato com o marechal Castelo Branco, previamente escolhido para liderar o golpe planejado pelo estamento militar, hipótese que o núcleo chefiado por MacNamara considerava plenamente exeqüível e, com certeza, vitoriosa. Diz Langguth que em havendo necessidade ?armas clandestinas seriam descarregadas via aérea, navios-tanques atracariam em Santos com petróleo norte-americano caso os comunistas se apoderassem da Petrobras?. A fantasia dos falcões de Washington chegou às raias da insanidade ao esboçar ?um plano de contingência para a eventualidade pouco provável de que os russos tomassem alguma atitude?.
Segundo Langguth, às nove e meia da manhã de terça-feira, 31 de março de 1964, a embaixada dos Estados Unidos recebeu de um contato do exército a informação cifrada: ?O balão foi lançado?. O golpe havia sido desfechado antes do prazo combinado por alguns generais de Minas e, por execrável coincidência, caiu no dia 1.º de abril.
Muitos anos mais tarde – anotou o escritor – Walters ainda ria um risinho espremido e caçoava de Gordon ao lembrar as famosas palavras deste último: ?Liguem o ar-condicionado?.
Planejar o envenenamento de Fidel Castro com pílulas que chegaram a Cuba por intermédio de um agente infiltrado, portanto, foi mera rotina no ofício dos esbirros do imperialismo norte-americano e sua vocação dominadora nos territórios abaixo da fronteira com o México. Só não contavam com a astúcia do herói de Sierra Maestra…
Ivan Schmidt é jornalista.