Ivan Schmidt

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Não se espere grande coisa do governo Lula. Eu não espero nada, a não ser um final antecipado ou, na melhor das hipóteses, melancólica derrota a três de outubro de 2006, qualquer que seja o candidato à presidência. A última pesquisa mostrou-nos o presidente ainda indene à enxurrada de denúncias, mas desde então a lama parece estar sendo bombeada com a força de uma erupção vulcânica.

A tentação seria afirmar que o governo Lula acabou. Na verdade, muitos já o dizem. Todos aqueles que votaram no primeiro líder a emergir das bases populares, o retirante nordestino e ex-metalúrgico da indústria Villares de São Caetano do Sul, no ABC paulista, e foram milhões nas quatro vezes que disputou a presidência até eleger-se, não o fizeram em troca da absurda decepção ora espalhada no País.

Em primeiro lugar, Lula e seus operadores políticos, José Dirceu à frente, cometeram o clamoroso erro de referendar a base aliada que garantiria os votos necessários no Congresso, cedendo espaço a partidos com o histórico do PTB, PP e PL, mesmo que este último trouxesse a chancela do vice-presidente José Alencar, homem cuja integridade moral é reconhecida.

A cientista política e socióloga Maria Victoria Benevides é membro da Comissão de Ética Pública da República, fundadora do Partido dos Trabalhadores, ouvidora da campanha de 2002 e integrante do grupo que organizou o programa de governo sob a coordenação do atual ministro Antônio Palocci. Tem, portanto, autoridade de sobra para dizer o que pensa.

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Em entrevista à Folha de S. Paulo, há menos de um mês, revelou que ?com relação à política de alianças, a gente escutava que havia a banda séria do PMDB, sei lá, o senador Pedro Simon e outros, que existe gente séria no PDT, no PPS, que existe gente ótima em outros partidos como o PSDB, que poderiam dar uma contribuição muito melhor que o PP e o PTB?. O raciocínio cartesiano se amplia: ?Não é enfatizar um moralismo, é deixar claro que o compromisso é com a governabilidade em nome de um projeto de nação, e não de um projeto de poder só?.

O fato a lamentar por muito tempo é que a orientação da praxis petista mudou da água para o vinho, e a imposição de novos relacionamentos por parte do comissário José Dirceu – apesar das inúmeras advertências – desaguou em promiscuidade ruinosa para o partido, de uns tempos a esta parte adonado por um grupo de dirigentes que se deixou enredar pelos tentáculos da lógica antípoda sempre repelida.

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A lucidez de Maria Victoria e a seriedade de suas observações não foram levadas em consideração pela cúpula, aliás, como acontecera com César Benjamim, Chico de Oliveira, Plínio de Arruda Sampaio e tantos intelectuais de renome, alijados do processo interno de debate que conferiu ao PT a aura hoje lançada ao lodo. E se ponderações respeitáveis não foram levadas em conta, foi porque alguns dirigentes bancaram a fajutíssima proposta de abrigar no seio do governo agentes que nele instilariam a cicuta da traição.

Diz a socióloga que o PT julgava-se superior aos demais partidos em termos de ética e moral e, assim, os adventícios haveriam de enquadrar-se de boa-fé nesse figurino, sem imaginar que o inverso também seria possível. Isso porque ?não há força moral que enquadre Roberto Jefferson, não há força moral que enquadre aqueles que mudam de partido porque se vendem. E isso acho que o PT não tinha claro?. Pois a força ética e moral do partido e os guardiões lá postos para zelar por ela, José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Sílvio Pereira, Marcelo Sereno et caterva, foram por água abaixo levados pela irresistível pressão exercida pelos proxenetas do dinheiro público.

A febre terçã instalada no organismo gremial sofreu perigoso surto com a revelação dos nomes dos deputados federais que teriam sacado dinheiro das contas de Marcos Valério, na agência do Banco Rural em Brasília, dentre eles João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara e pré-candidato ao governo de São Paulo.

Vergonha e desídia mancharam a bandeira do Partido dos Trabalhadores, transformando em rebotalho a militância de homens e mulheres que, à porta das fábricas, comunidades de base, associações de bairros, repartições públicas, cátedras e salas de aula, ou nas ruas, sempre que a ação da cidadania foi requerida, foram os combatentes anônimos da gesta de 25 anos que culminou com a eleição do ?companheiro? Lula à presidência.

Dia desses, Tarso Genro, novo presidente do PT, em tardia autocrítica inquinou de arrogante a postura do partido em proclamar direito consuetudinário sobre o primado da honestidade. Arrogância que está cobrando dividendos altíssimos, jamais sonhados por Palocci, o ecônomo preferido por onze entre dez chefões do monetarismo mundial.

Ivan Schmidt é jornalista.