A linguagem dos espelhos

O governador Roberto Requião foi o entrevistado do primeiro programa Brasil Nação do ano, conduzido pelo jornalista Beto Almeida e apresentado na noite do último domingo pela TV Educativa. A emissão serviu para o governador, mais uma vez, dar vazão a seus ressentimentos em relação aos adversários políticos e, em especial, à mídia, a quem atribui de forma insofismável e com exemplar ligeireza todos os percalços do mandato recém-encerrado ou da campanha eleitoral, ao resumir que ?foram quatro anos de absoluto horror?.

Ora, deveria saber o governador (ou ser informado por assessores) que dificilmente a sociedade estará convencida do embasamento desse preconceito, tendo em vista que a mesma camada a quem a entrevista foi preferencialmente dirigida é a que tem acesso à informação transmitida – de modo geral – pelos meios de comunicação.

E, por mais exorbitante que seja a empostação do governador ao ressumar os debiques de quem se supõe alvo de solertes inimigos entrincheirados nas redações, teclando computadores, manejando câmeras, microfones ou a metralha das ilhas de edição, é um suplício aceitar o cantochão sem dar o devido desconto ao tom hiperbólico que, nos últimos tempos, da Rocinha ao Pantanal e da Praça dos Três Poderes ao Bigorrilho, passou a rechear o discurso dos homens públicos.

Os que têm por dever de ofício acompanhar de perto o comportamento da mídia, e o governante deveria ter interesse pessoal nisso, porquanto a leitura didática dos jornais é nutriente de extrema valia para a governabilidade, na avaliação do ex-governador Cláudio Lembo, em sã consciência ou por mais sensibilizados que estejam pela angústia existencial do agora três vezes governador, jamais poderão concordar com a afirmação que a mídia fez ataques gratuitos, raivosos ou predatórios a Sua Excelência, posto que em muitas circunstâncias – o que é de sua obrigação – tivesse mostrado discordância com o estilo desarrumado do gestor, não raras vezes, desproporcional à realidade dos fatos, como costuma doutrinar Mino Carta, um monstro sagrado do jornalismo e, de resto, admirador do jeito Requião de governar.

Instado a falar sobre a relação com os meios de comunicação no atual exercício, já que não haverá publicidade oficial – que se fará com editais, avisos públicos, balanços e a papelada da imensa burocracia estadual? -, o governador explicou que há meios eficientes para facilitar a comunicação com a sociedade. Entre eles citou a internet e as rádios comunitárias (?esta emissora?, concedeu um dos entrevistadores), para gáudio do governador, cuja imagem e voz poderiam ser captadas, naquele momento, em qualquer tugúrio da Patagônia ao Canadá. Ufa!

E, tendo em vista que produzir hipérboles é um de seus passatempos prediletos, Requião contou a pasmos e emudecidos senhores que o site de notícias do governo chega a ter 230 milhões de acessos! Ao que se sabe, o epifenômeno mundialmente conhecido mais próximo do formidável desempenho na TV Educativa só ocorre com o YouTube e seus 50 milhões de acessos mensais, sobretudo, quando disponibiliza material de primeira como as tórridas cenas protagonizadas por Daniela Cicarelli e seu namorado. Antes o site do governo só perdia para as consultas ao Imposto de Renda, mas agora ninguém segura o tsunami de acessos, equivalente a quase uma vez e meia a população do País. Portanto, danem-se os editoriais dos jornalões!

Tendo admitido que menos de 10% da população estão conectados à internet, faltou ao governador explanar o dado insignificante de como o estrondoso feito jamais foi detectado por uma rede que devassa até mesmo as minúcias da vida íntima das lagartixas. Diante da facilidade de criar factótuns que a todos pegam de surpresa e deixam embasbacados os cínicos mais empedernidos, nada é suficientemente insólito ou constrangedor para determinados atores do Estado-espetáculo. Eles podem emergir, fantasiados de ornitorrincos, do interior de um gigantesco bolo de aniversário, saltar do avião sem abrir o pára-quedas ou caminhar sobre as águas.

Como diria Josef Nório Sculhoff, hoje recolhido à sua aprazível vila na área mais conturbada de Bagdá, foi para esses que Checov ensinou a lição particular: ?Não é por culpa do espelho que tens a cara errada?.

Ivan Schmidt é jornalista.

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