Importantíssima a leitura do artigo da psicanalista Anna Verônica Mautner, membro da seção paulista da Sociedade Brasileira de Psicanálise, publicado nesta quarta-feira pela Folha de S.Paulo, em Tendências&Debates. A pertinência do referido texto está implícita no parágrafo de abertura, no qual se dá conta da existência das chamadas ?não-pessoas?, a tradução da expressão inglesa no person.
Anna Verônica assinala que no Brasil atual os jornais têm trazido muitas histórias vividas por essas ?não-pessoas?, levando muitos a ver-se diante da ?louca fantasia de que nossos subalternos são ou deveriam ser todos fiéis, leais e mudos – e mais: quando escutam, não ouvem ou não entendem?. Contudo, a realidade desmente a suposta fantasia.
Segundo a autora, ?vivemos com coleções de serviçais que queremos a nosso inteiro dispor dia e noite, executando nossos desejos, antecipando nossas atitudes e ações, sempre ali, ao lado, solícitos, apesar de surdos, burros e, especialmente, ignorantes?. O óbvio enfoque da psicanalista não poderia ser outro senão o caseiro Francenildo Santos Costa e o motorista Francisco Chagas da Costa, humildes trabalhadores de Brasília, autênticas ?não-pessoas? para os pseudopoderosos, que acabaram pondo a República numa situação vexaminosa sem precedentes, talvez, pior que a protagonizada pela camarilha de Fernando Collor.
Mas, há uma pergunta que se pode (e deve) fazer. Como compreender as razões que levaram Rogério Buratti e os demais componentes da República de Ribeirão Preto, assim como ocorrera antes com Genoino, Delúbio e Silvinho, a abrir mão do bom senso e atirar-se de cabeça nas desatinadas aventuras da mansão brasiliense, à sombra do insuspeito ex-patrão Antônio Palocci?
Parte da resposta a essa embaraçosa questão pode ser tirada da entrevista do cientista político Leôncio Martins Rodrigues à Folha de domingo, na qual abordou vários aspectos da pesquisa ?Mudanças na Classe Política Brasileira?, que realizou sob auspícios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Martins concluiu que a política brasileira não apenas passou por um processo de popularização, mas transformou-se numa espécie de reserva de caça sobre a qual avançou a voracidade de grupos e personagens políticos, ?como parte de um projeto pessoal de ascensão social?.
Diz ele que ?essa é a primeira vez que esse grupo vindo mais de baixo pode usufruir, ou tentar usufruir, totalmente dos benefícios do Estado em dimensão nacional?. Alguns afoitos poderiam vislumbrar na avaliação uma inegável carga de preconceito, bairrismo ou discriminação social. O nó é que a pesquisa apenas constata e procura interpretar os fatos à luz de protocolos consagrados por uma ciência que estuda facetas do comportamento humano. Apesar de alguns, repito, buscarem enxergar por trás das declarações de Leôncio a rebarbativa superioridade dos príncipes do círculo acadêmico paulista, o cientista não está blefando.
?Penso que, para os que vieram de baixo, o deslumbramento é maior?, afirmou, citando como exemplo o ?encanto que o grupo do governo petista em Londres teve em relação à pompa da monarquia britânica. Eles esqueceram inteiramente que a esquerda combatia o imperialismo britânico. Eles se deslumbraram com uma coisa que a monarquia britânica mantém justamente para seduzir os babacas?.
O cientista fez questão de frisar que as conclusões da pesquisa não pretendem estabelecer a regra de que ?os políticos que já são ricos não queiram ficar cada vez mais ricos e não apreciem essas dádivas do poder?, lembrando que ?a ascensão social e econômica ligada à ascensão política ocorre em toda parte?, ainda mais no Brasil, onde se perpetua o uso clientelístico do Estado com a apropriação de ?grandes privilégios e benefícios oferecidos pela ocupação de cargos políticos?.
Não se trata, é bom reconhecer, de algo estranho à nossa manjada práxis política. A impressão do pesquisador, porém, o levou a formular a hipótese de que, para governar, o PT necessitava de apoio dos deputados de partidos que sempre foram considerados de direita e, portanto, adversários da esquerda encarnada nos seus ideais. ?Não havendo afinidade ideológica, além da distribuição de benefícios e cargos, a necessidade de ?incentivos? financeiros ficou maior. Isso talvez explique por que o grau de corrupção foi bem mais elevado, mais extenso e organizado no governo Lula do que em governos anteriores?, comentou ao dar forma ao conceito de que ?o PT foi mais voraz e ambicioso porque tinha também um projeto de continuar no poder por mais alguns mandatos e tinha que amealhar mais recursos?.
Um comportamento lastimável e altamente oneroso, quiçá corretivo, a um partido que se proclamava do bem e da pureza ideológica, ademais de legítimo proprietário da ética. Um logro que acabou desmoralizado pela esperança enxovalhada de ?não-pessoas? que melhor seria terem permanecido surdas, mudas e ignorantes, mas que se tornaram em bom momento símbolos do clamor popular.
Ivan Schmidt é jornalista.