Ivan Schmidt

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A história é conhecida. O médico humanitário que a todos atendia com a eficiência e a dignidade que o profissional da saúde, sobretudo os que fizeram o juramento de Hipócrates, está obrigado a dispensar, sem distinção, às pessoas que o procuram em busca de auxílio, acabou trocando a profissão pela política. Foi eleito sucessivas vezes vereador, deputado estadual e federal.

Trata-se de Florisvaldo Fier, o Dr. Rosinha, assim conhecido pela preferência às camisetas cor-de-rosa, ao que se diz, hábito dos tempos de acadêmico de medicina em Curitiba. Não tenho o prazer de conhecê-lo pessoalmente e tampouco possuo procuração para defendê-lo, mas asseguro que está entre os melhores referenciais do Partido dos Trabalhadores no Paraná, condição que o coloca no bloco cada vez mais minguado de políticos que procuram – em nível nacional – calafetar os rombos infligidos ao casco do adernado barco petista.

Enquanto antigos companheiros já venderam (mais de uma vez) a alma a Belzebu, esse deputado continua fiel aos paradigmas fundantes do partido, não se sabe por quanto tempo. Beneficiado por uma reserva coesa de eleitores, decerto conquistada e preservada pela coerência entre o discurso e a prática ao longo de não poucos mandatos, Dr. Rosinha já deglutiu alguns troncudos anuros, quem sabe, estimulado pela vã esperança de que o partido pudesse aprender com os próprios erros. Não foi o que aconteceu, necessariamente, porquanto o PT açambarcou na sua curta existência todos os vícios que condenara com apaixonado desassombro nos partidos conservadores.

A favor do Dr. Rosinha é preciso dizer que sempre se pautou por uma conduta independente de algumas resoluções partidárias, ou quando não foi possível agir de outra forma, ao menos procurou manter a lealdade programática ao invés de demonstrar cega submissão aos interesses ditatoriais de determinados dirigentes, atualmente em desgraça. Aliás, a meu juízo, o deputado não teria desagradado aos eleitores caso tivesse decidido acompanhar a senadora Heloísa Helena e os demais deputados federais que fundaram o Partido da Solidariedade (PSOL). Ficou no PT e nesse partido segue travando sua gesta política pessoal.

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Sua última manifestação é irreprochável e longe está daquele esfarrapado argumento de que chegou tarde. Ao contrário, o deputado sempre viu com reserva a aliança PT-PMDB para a conquista da Prefeitura Municipal de Curitiba. Como bom militante, não se furtou a participar de ambas as campanhas fracassadas do deputado Ângelo Vanhoni, derrotado primeiro por Cássio Taniguchi e depois por Beto Richa. Escaldou-se o deputado, e decerto outros petistas de raciocínio próprio, com a lamentável experiência do segundo turno da eleição de 2000, quando um PMDB fulminado por desmoralizante terceiro lugar com Maurício Requião, num minueto absolutamente ridículo ensaiou transferir um apoio que não tinha condições de entregar a Vanhoni, porquanto sua base municipal fora reduzida a alguns gatos pingados que insistiam em manter aberta a cubata da Vicente Machado.

Por isso, quatro anos mais tarde, Dr. Rosinha não teve receio em alertar que a aliança de 2004 tinha todos os ingredientes para repetir a frustração anterior. A revelação feita na Assembléia Legislativa na última segunda-feira, anotada pela repórter Elizabete Castro, resume a avaliação do deputado: uma ?catástrofe?, da qual o PT emergiu com a segunda derrota consecutiva na eleição para a Prefeitura, e com a bancada de vereadores reduzida de seis para três representantes.

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O deputado só esqueceu de citar o maior beneficiado da aliança, o governador Roberto Requião, que nas duas últimas eleições teve a vitória assegurada pelos votos petistas. No primeiro governo nomeou o padre Roque para a Secretaria do Trabalho, onde o clérigo rezou a missa segundo seu catecismo pessoal, e passou o resto do tempo trocando farpas, algumas pontiagudas e envenenadas, com a bancada liderada pelo deputado André Vargas, a rigor, o mais novo convertido às virtudes da pedra filosofal encravada no recém-inaugurado Palácio das Araucárias. Razão assiste ao Dr. Rosinha, que não freqüenta essa irmandade…

Ivan Schmidt é jornalista.