Ivan Schmidt

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Teria sido a intelligentsia dos partidos de esquerda, falange comandada pelo Partido dos Trabalhadores, credora da maior fatia da campanha que conduziu o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República? A resposta é de difícil enunciado, até porque a aliança formada para apoiar a campanha não contou exclusivamente com partidos de esquerda. Dois deles, os conservadores PTB e PL, haviam apoiado Fernando Henrique Cardoso, mudando de lado ante a evidência das poucas chances de Serra.

Talvez nem seja razoável falar duma orquestração da intelligentsia da oposição, na verdade solitariamente arvorada pelo PT e PPS, tendo em vista que o PDT, partido do velho caudilho Leonel Brizola, pouco ou nada acrescentou ao andamento do projeto lulista. Deve-se lembrar que a participação da esquerda não foi significante, vez que o próprio candidato resolveu contratar os serviços do publicitário Duda Mendonça, que algum tempo antes chefiara o marketing político de Paulo Maluf e Celso Pitta.

A essa altura, não é crível associar a vitória de Lula à arregimentação da massa trabalhadora brasileira, apesar da presença constante desse epíteto no discurso de Luiz Inácio, desde os tempos da Vila Euclides. Assim como em outros países, a revolução proletária que Marx antevia como causa inexorável do crescimento da industrialização capitalista, e a chegada dos trabalhadores ao poder central, deixou a maioria de seus pregoeiros a ver navios.

De acordo com o sociólogo norte-americano Seymour Martin Lipset (Consenso e conflito, Gradiva, Lisboa, 1992), a presunção era que os trabalhadores formariam a maioria da sociedade industrial e, com o desenvolvimento da consciência de classe, era fatal sua chegada ao poder. O raciocínio tem base na formulação de Marx quanto ao colapso do sistema capitalista, tão logo levasse a sociedade a um nível elevado de industrialização.

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A vitória dos trabalhadores e do movimento socialista enquanto sistema político, assinala Lipset, reproduzindo o pensamento de Marx, ?emergiria mais fortemente e triunfaria em primeiro lugar no país capitalista mais desenvolvido, isto é, a partir do século XIX em diante, os Estados Unidos?. Para ver como a previsão do filósofo da história esvaiu-se como a névoa, basta constatar a verdadeira transformação do capitalismo num domínio universal e a hegemonia histórica exercida pela direita sobre o governo do referido país.

Nos dias que correm, já no segundo mandato de Bush, a visão extremada do conservadorismo de origem religiosa do presidente o faz encarnar a hipótese de estar na Casa Branca com o destino manifesto de interpretar a vontade de Deus. Mesmo que, do ponto de vista da teologia paulina, se perceba que a autoridade recebe o mando do Criador, o protagonismo arrogante de Bush é uma agressão à fé cristã.

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Voltando aos conceitos anteriores, Lipset lembra o líder do Partido Trabalhista Socialista nos Estados Unidos, Daniel De Leon, que, no Congresso da Internacional Socialista realizado em 1904, em Amsterdâ, proclamou: ?Se minha leitura da história é correta, a profecia de Marx concretizar-se-á e a América fará soar a queda do capitalismo em todo o mundo?.

Vários autores, incluindo marxistas, reconhecem que tal premissa foi sepultada pela história. Ou seja, os trabalhadores não conquistaram o poder como prefigurava a fugaz teoria. Mesmo nos países industrializados onde o sindicalismo ganhou força, o Estado sempre foi mais potente e, com o respaldo do poder econômico, jamais abriu mão dos mecanismos de circulação das riquezas e distribuição da renda.

Partidos e políticos representantes da alta burguesia e do próprio capitalismo apoiaram a campanha de Lula à Presidência da República, não só pelo escasso entusiasmo despertado por José Serra, mas talvez pelos sinais inequívocos das pesquisas de opinião quanto ao desejo de mudar. A famosa Carta aos Brasileiros veio desfazer a ansiedade reinante no topo da estreita agulha da pirâmide social, cuja tranqüilidade foi solidificada com a indicação de Henrique Meirelles, ex-presidente do BankBoston, para a presidência do Banco Central, hoje blindado com o status de ministro.

Esse é um dos inúmeros motivos que levam o PT a lavar em público sua roupa suja, enervando-se as tendências ideológicas mais à esquerda, por isso mesmo em total descompasso com as palavras de ordem oriundas da cúpula, por seu inegável conteúdo ambíguo até então tratado como lixo histórico pelos setores intelectualizados da militância.

A maioria dos trabalhadores não conseguiu melhorar de vida, mas a nomenclatura do partido que lhe herdou o nome chegou ao paraíso, e não quer sair.

Ivan Schmidt é jornalista.