Em um dia, a notícia do recuo do Produto Interno Bruto (PIB), caracterizando a recessão econômica no Brasil. No outro, a informação de uma inflação em queda. Notícias que, em teoria, têm gostos distintos – para um leigo, PIB em baixa representa problema, e inflação em baixa é uma boa. Mas, olhando para os fatos mais a fundo, vê-se que são duas informações complementares, e que trazem certa preocupação, mesmo com o otimismo irrefreável do governo federal.
Sim, porque por mais que se esperasse um mau resultado na economia nos números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um dado negativo sempre traz impacto. E foi isso que aconteceu quando do anúncio da redução de 0,8% no PIB. O choque foi maior porque nos últimos anos o Brasil cresceu a galope, destacando-se inclusive nas economias emergentes. Daí a rapidez em tentar “administrar” o resultado, com as declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega (“foi melhor do que esperávamos”), do vice-presidente José Alencar (“foi uma vitória”) e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles (“é a base para a retomada do crescimento sustentável”).
Quando surgem os números da inflação, a preocupação aumenta. O repórter Hélio Miguel relatou na edição de ontem de O Estado: “Depois de ter apresentado uma variação de 0,82% em abril, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, em Curitiba, ficou em apenas 0,15% e foi o menor entre as 11 capitais pesquisadas, conforme divulgou ontem o IBGE. Em 2009, o índice da capital paranaense está em 2,24% – o quinto maior entre as capitais – e, no acumulado dos últimos 12 meses, está em 4,47% – o segundo mais baixo do País, atrás apenas de Salvador. Na composição do índice, altas em grupos como alimentação (0,54%), habitação (0,71%) e vestuário (0,54%) foram compensadas por uma baixa de 1,36% em transportes, puxada por uma redução de 3,82% nos combustíveis. Na alimentação, as baixas mais significativas aconteceram nos cereais, leguminosas e oleaginosas (-5,04%), aves e ovos (-5,29%) e frutas (-4,73%)”.
E a inflação caiu não porque o ritmo da economia é bom. É porque houve uma redução de consumo, que obrigou o comércio a diminuir os preços para atrair os compradores. O que surpreende, pois já se imaginava que o pior momento havia passado. E os números divulgados na manhã de quarta-feira – coincidência ou não – foram sucedidos, no final do mesmo dia, por mais uma significativa redução na taxa básica de juros, que caiu para 9,25%, o menor desde a fixação da Selic como meta da política monetária.
Há mais. No comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na noite de quarta, um aviso com duas leituras: “Levando em conta que mudanças da taxa básica de juros têm efeitos sobre a atividade econômica e sobre a dinâmica inflacionária que se acumulam ao longo do tempo, o comitê concorda que qualquer flexibilização monetária adicional deverá ser implementada de maneira mais parcimoniosa”.
Perfeitamente. Lendo pela primeira vez, fica evidente que o ritmo da queda de juros será menor nos próximos meses, tendendo até a estancar nestes 9,25%. Mas leia de novo a frase do comunicado do Copom. Faça uma interpretação contrária e perceba que, se for necessário atacar o mal com firmeza, o Comitê de Política Monetária (certamente com os auspícios do poder central, quer dizer, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva) vai agir com agressividade. Tudo para que a economia brasileira realmente não sofra tanto como outros países sofreram, como não se cansam de dizer os responsáveis por ela.