O grau civilizacional de uma nação pode ser aferido pela maior ou menor identificação com o sistema do qual faz parte. Assim, para enxergar o perfil do Brasil, basta colocá-lo diante do espelho da civilização ocidental que o reflete. Tomemos emprestadas as duas imagens do Ocidente que o professor Samuel P. Huntington utiliza em seus ensaios. Na primeira, as nações ocidentais dominam o sistema financeiro internacional, manobram moedas fortes, fornecem a maioria dos bens acabados, controlam o ensino de ponta, realizam as grandes pesquisas científicas, dominam o acesso ao espaço, as comunicações internacionais, a indústria aeroespacial e as rotas marítimas, enfim, compõem a maior clientela do mundo. Na segunda imagem, distingue-se um conjunto de nações em crise, com parcela de seu poder político, econômico e militar em declínio. Nesse cenário, apontam-se lento crescimento econômico, alto desemprego, enorme déficit público, baixas taxas de poupança, criminalidade e imensa desigualdade social. Com qual dessas imagens a nação brasileira mais se parece?
Para ajudar o leitor a tirar conclusões, vale lembrar que o País, depois de décadas de inflação alta, conseguiu forjar uma moeda estável; apresenta bom superávit médio na balança comercial (cerca de US$ 34 bilhões); exibe, em alguns setores, tecnologia de ponta; é competitivo em nichos como o agronegócio; baixou o risco-país de 1.445 pontos para 270 pontos e até liquidou a dívida com o FMI. Em outra escala, entre 177 nações, exibe o quarto pior coeficiente (Gini) que mede a distribuição de renda entre indivíduos, com 47% da renda nacional nas mãos dos 10% mais ricos; enterra, anualmente, 50 mil vítimas da violência por armas; tem uma taxa de investimento de cerca de 20% do PIB (na China, esta taxa chega a 45%); e é líder mundial no ranking das taxas de juros e da carga tributária, essa atingindo 37% do PIB.
Esses dois conjuntos de dados, pinçados aleatoriamente, não são suficientes para dar ao Brasil imagem positiva ou negativa. Digamos que as duas bandas da imagem do Ocidente também abrigam o território brasileiro. O que chama a atenção, porém, é o contraste entre os aspectos positivos e negativos do País, usados ora para situá-lo na esfera do Terceiro Mundo ora para inseri-lo no universo restrito das nações emergentes, particularmente junto ao conjunto chamado de BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China. A dimensão continental do território; os vastos recursos naturais, a partir da maior reserva de água doce do mundo e de extraordinárias reservas minerais; os potenciais em setores específicos, que passam a incluir até o petróleo, do qual não somos mais dependentes internacionalmente; as belezas naturais, que projetam um promissor cenário turístico, particularmente quando se levam em conta os conflitos étnicos e de cunho religioso, o terrorismo e as disputas por espaço; uma infra-estrutura técnica preparada para a alavancagem dos setores produtivos; quadros profissionais gabaritados e escolas de alto nível, enfim, um espaço tropical que, até o presente, não tem sido devastado por grandes catástrofes naturais – terremotos, maremotos – são alguns dos eixos que sustentam a confiança no futuro brasileiro.
Se a base territorial é sólida, por que o edifício balança com os ventos que sopram ocasionalmente nos ciclos de crise? Porque a estrutura institucional é frágil. Esse é o dilema brasileiro. Somos uma expressão geográfica de peso, mas estamos ainda longe de constituirmos uma pátria, assim entendida como sincronismo de espíritos e de corações, solidariedade sentimental de raças, comunhão de esperanças, sonhos comuns, decisão coletiva para marchar juntos. Parâmetros comparativos nos fazem lembrar filmes do Velho Oeste americano, povoado de xerifes e índios, bandidos e mocinhos, muitas maldades e poucas bondades, muito tiro e confusão. As disputas por espaço se multiplicam, seja por espaço físico (terra), poder político, mando na administração pública. O ambiente ainda é muito selvagem. Os donos do poder usam as instituições para reforçar o seu sistema de forças. As leis ficam sob o abrigo das circunstâncias. Os casuísmos multiplicados e em seqüência solapam as instituições. A mediocridade se instala em todos os poros do Estado. Os governos criam uma sociedade de corte e de castas. O que sobra? José Ingenieros, o grande escritor argentino, responde: enquanto um país não é pátria seus habitantes não constituem uma nação. Ou ainda: quando os interesses venais se sobrepõem ao ideal dos espíritos cultos, que constituem a alma de uma nação, o sentimento nacional degenera e a pátria, explorada como indústria, regressa à condição de país.
Por essa via, podemos aduzir que a imagem do território brasileiro é excelente, mas a imagem da pátria exibe vazios que não permitem posicioná-la numa escala de grandeza. Os desafios para que o País possa alcançar efetivamente imagem de respeito na moldura ocidental abrigam, portanto, a consolidação das instituições sociais e políticas, o que, por sua vez, requer o resgate de valores fundamentais da cidadania, como a educação, a igualdade entre classes, o acesso e a justiça para todos, a harmonia e a paz social, enfim, a comunhão de esperanças. É coisa para duas ou mais gerações. Até lá, o País caminhará em curvas, subindo e descendo, ora exibindo suas fabulosas riquezas, ora desfilando suas misérias. Poderia encurtar o trajeto, se seus homens públicos tivessem vontade política para refundar a República sob o signo da dignidade.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.