A opinião geral é que os resultados concretos do encontro do G20 (reunião das economias industrializadas mais os países emergentes), realizado em Washington no último sábado, poderiam ser melhores. Mesmo assim, o nível de satisfação ficou acima da média e alguns itens consignados no documento final, como o fortalecimento da Rodada Doha para a flexibilização do comércio mundial, como preconizava o Brasil, foram recebidos com muita simpatia pelos chefes de governo dos países emergentes.
Pelo menos um ponto parece ter ficado claramente delineado na mente de todos os participantes: de agora em diante os Estados Unidos terão de compartilhar o poder de decisão quase hegemônico sobre a economia mundial, diante do aparecimento de atores relevantes no cenário da economia. O ponto de vista foi verbalizado de forma cabal pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, ao declarar aos jornalistas que “a América é a potência número 1 do mundo. É a única potência? Não. Vivemos num mundo novo”. A apreciação do governante francês reforça a convicção amadurecida com a mesma celeridade da crise financeira derramada sobre as economias industrializadas do chamado primeiro mundo, que o G8 (o grupo das sete maiores economias mundiais mais a Rússia) perdeu as condições de ditar normas para o resto do planeta.
De acordo com o Financial Times, um dos modernos arcanos do debate econômico, o fato importante da cúpula foi ter contado com a participação de China, Índia, Brasil e outras economias emergentes, numa espécie de “atestado de óbito do velho G7, e melhor ainda se for possível fazer do G20 um substituto mais compacto e eficiente, dando à União Européia apenas uma vaga em lugar das quatro de hoje”. Com efeito, essa é uma proposta prioritária na agenda de relações internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reiterada em Washington, ao enfatizar que as questões financeiras globais devem passar a ser tratadas de modo permanente pelo G20 e não mais pelo G8, sublinhando que assim como o Brasil, os países emergentes têm um potencial de crescimento interno que “os países desenvolvidos não têm”, uma qualidade que ninguém pode deixar de levar em consideração.
Um fato não passou despercebido dos observadores no jantar de confraternização oferecido na Casa Branca pelo presidente George W. Bush, naquele que teria sido o derradeiro encontro com chefes de governo de países importantes ainda no exercício do cargo, já que entregará o governo ao sucessor Barack Obama no dia 20 de janeiro próximo. No Salão de Jantar de Estado, os lugares à direita e à esquerda de Bush foram reservados aos presidentes Lula e Hu Jintao (China), não por acaso os dirigentes das duas potências emergentes que mais chamam a atenção do mundo pelas reais potencialidades de desenvolvimento econômico e integração com as demais economias globalizadas.
Num movimento estratégico habilidoso, mesmo convidado, o recém-eleito presidente Barack Obama não esteve pessoalmente no encontro, mas se fez representar pela ex-secretária de Estado Madeleine Albright e o ex-congressista Jim Leach, que tiveram encontros paralelos com 15 dos 18 países participantes da cúpula. O próximo encontro dos chefes de governo do G20 está marcado para abril, onde se dará a estréia de Obama como interlocutor privilegiado na discussão de inúmeros temas como a cláusula do livre comércio defendida pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown, com o apoio inesperado de Bush e a energia costumeiramente esbanjada pelos emergentes.
A cláusula impede que governos levantem barreiras para investimentos e comércio de bens e serviços, bem como adotem medidas restritivas às exportações ou em contradição com as normas vigentes na Organização Mundial do Comércio (OMC). O mundo requer avanços na configuração de paradigmas que aumentem a transparência da complexidade da economia e, sobretudo, regulem com eficácia a atuação das instituições não-financeiras, agências de avaliação de crédito e o sistema bancário.