Ninguém argumentará que uma reivindicação salarial pudesse vir a ser injusta, ainda mais se ela ocorre em um setor como o da saúde, cujo sofrimento que lhe tem sido imposto é absolutamente desproporcional, em especial quando comparado a outros setores de igual importância social e econômica.
Mas o fato que precisa ser ressaltado é que se hoje os hospitais paranaenses estão absolutamente impossibilitados de conceder qualquer reajuste aos seus funcionários, isto ocorre porque nos últimos anos, ao mesmo tempo em que os salários dos trabalhadores foram reajustados em diversas oportunidades, a remuneração dos serviços hospitalares o foi em praticamente zero, motivo pelo qual muitas instituições fecharam suas portas no transcorrer desse período.
Se um sistema de saúde é algo essencial para uma sociedade que pretende ser considerada como minimamente organizada, a única alternativa capaz de apresentar-se como solução para este impasse encontra-se na absoluta urgência quanto ao encerramento da verdadeira greve que desestimula e impede o adequado crescimento do setor da saúde: a greve de responsabilidade, ou que poderia também ser chamada de greve da falta de bom senso, executada pelos dirigentes responsáveis pelas políticas de saúde públicas e privadas em suas diversas esferas.
Esta greve de responsabilidade é representada por uma imposição de um congelamento nos valores de remuneração dos serviços hospitalares, tanto pelo setor público quanto privado, desprovido de quaisquer critérios técnicos e/ou sociais, e que já dura muitos anos (ou talvez décadas). Pois somente uma greve de responsabilidade poderia explicar (sem evidentemente justificá-lo) como seria possível imaginar a sobrevivência de um setor cujos valores orçamentários no sistema público (leia-se SUS), representando mais do que 50% do total dos recursos, tenham sido reajustados em valores muito próximos de 0%, enquanto no setor privado (leia-se planos de saúde) o reajuste tenha sido de absolutamente nada no mesmo período, enquanto a população cresce anualmente, e, como reconhecido em nível internacional, existe uma inflação tecnológica de pelo menos 10% ao ano.
Assim sendo, na impossibilidade comprovada de aumento de seus custos (neste caso trabalhistas), o que de melhor a sociedade e os hospitais que venham a sobreviver a mais este desafio podem esperar é que a greve dos trabalhadores pelo menos ajude a encerrar a maior de todas as greves, qual seja a greve da falta de bom senso que desde há muito tempo, e de forma quase despercebida pela sociedade, tem se prolongado por muitos anos (ou décadas?), de maneira a que, cada vez mais, menos pessoas tenham acesso a um número cada vez menor de serviços qualificados de saúde em nosso País.
Que este sintoma agudizado da crise faça com que a sociedade exija a apresentação de soluções pelos verdadeiros responsáveis por esta situação crônica de impasse. Que os trabalhadores percebam o enorme risco que o conflito coloca para seus próprios postos de trabalho caso estas soluções não sejam apresentadas! Que os cidadãos percebam o grande risco de verem seus hospitais fechando as portas! Que os compradores de serviços percebam o grande risco de não terem de quem comprar estes serviços. E que, finalmente, na iminência de uma crise que coloca graves riscos para todos, as partes efetivamente se apresentem para o estabelecimento de um relacionamento de real cooperação, em que o grande número de desvios de ordem administrativa, econômica e política possam ser corrigidos, e onde o paciente/cidadão/usuário possa receber o tratamento que efetivamente necessite, o prestador/trabalhador receba a remuneração que é efetivamente devida, e as fontes pagadoras paguem o que é efetivamente justo, pelos serviços que são efetivamente necessários.
Por meio da união e da cooperação, estes objetivos podem ser plenamente alcançados, e diferentemente de uma Copa do Mundo de Futebol, onde apenas (de longe) torcemos e agitamos nossas bandeiras, poderemos alcançar verdadeiras conquistas e entrar em campo, atuar, marcar um gol de placa, e nos tornarmos verdadeiros campeões da saúde e da cidadania.
Marcial Carlos Ribeiro Júnior é presidente da Associação Paranaense de Instituições Hospitalares.