Era um desses dramas intensos pelo qual meu amigo daria a metade da vida para ter o privilégio de deslindar. Não seria exagero afirmar que sua excitação chegara ao máximo com a notícia recém-divulgada nos meios políticos. Os membros das duas câmaras – a Alta e a Baixa – ferviam de entusiasmo, lamentando uns e festejando outros com inegável prazer a sorte do ministro encarregado de conduzir as finanças de enorme país da longínqua América do Sul, conhecido pela exportação de bananas, sagüis e bailarinas que encantam freqüentadores dos pubs à beira do Tâmisa.
Apesar de jamais ter demonstrado o menor traço de crueldade, era evidente seu contentamento interior com o que ouvira na tarde anterior, nos corredores que dão acesso ao salão principal do Parlamento, nos intervalos dos debates sobre o financiamento para a construção de ferrovias na África e a equipagem duma frota para abarrotar Londres com o precioso chá da Índia.
Não se percebia nele, portanto, nenhum vestígio de horror que eu próprio sentia em face daquelas notícias. Seu rosto, ao contrário, apresentava a aparência tranqüila e interessada do químico que vê os cristais dimanarem, segundo a fórmula desejada, de uma solução supersaturada.
– Notável! – exclamou ele. -Notável!
Cocei o queixo e olhei através da ampla janela aberta no meio da brilhante manhã, coisa rara mesmo no início da primavera, e não deixei por menos.
– O que pode haver de notável na queda de ministro em país do Terceiro Mundo? Afinal, essas coisas são rotineiras nos regimes políticos instáveis que, tirante a costumeira arrogância e o ar de superioridade, os liberais chamam de republiquetas.
– É, sim, extremamente notável, meu caro amigo. Somente os parvos não percebem a claridade da coisa toda…
E acendeu com a meticulosidade de sempre o cachimbo de aroeira ganho de presente do príncipe imperial de H…, além das mil libras que embolsara por ter descoberto o autor do seqüestro do gato de estimação de sua alteza.
– Continuo sem atinar os motivos de tanto regozijo com a desventura alheia…
Meu amigo sequer se dignou comentar a observação, em primeiro lugar porque jamais levava a sério quaisquer delas. Depois, porque decerto a julgara indigna de resposta. Mudou bruscamente o tom da conversa.
– Ocorre que descobri que o ex-ministro da economia é médico, portanto, seu colega de profissão. Só que a especialidade que escolheu foi o sanitarismo e não a cirurgia, como você, e jamais prestou serviços ao exército de seu país em tempos de guerra. Aliás, antes de ser ministro foi prefeito municipal no interior de São Paulo, o maior estado do país, verdadeira locomotiva econômica, segundo garantem corretores de café na Bolsa de Londres.
Claro que nem de longe se parece com uma guerra, mas há quem diga que no cargo de prefeito, o mais tarde ministro teria se beneficiado de dinheiro escuso, ao que parece, hábito recorrente de administradores públicos da terra. Simples troca de favores entre empresários que assinam contratos milionários e os ditos administradores…
– E daí? Ele foi afastado do governo por causa disso?
De novo, sem prestar atenção à pergunta, meu amigo falou consigo mesmo:
– Claro, um antigo colaborador na prefeitura deu o serviço e o homem caiu em desgraça. E depois ainda revelou perante a comissão instalada no Congresso para investigar a corrupção que havia uma casa alugada na capital federal para encontros com raparigas como as que oferecem seus serviços a cinco xelins, e à prospecção de bons negócios com o governo.
– Começo agora a compreender…
– A sopa ferveu mesmo quando o caseiro da mansão entrou em cena para confirmar que o ministro da economia era visitante assíduo da casa. Foi um deus-nos-acuda, tormento inigualável para um governo já desmoralizado pela queda anterior de ministros e o desmoronamento ético de seu arranjo político. Até o estouro da boiada. O poderoso ministro caiu porque a Polícia Federal, espécie de Scotland Yard tropical, descobriu que ele deu ordem ao presidente de um banco estatal, a Caixa Econômica Federal, para providenciar com urgência um extrato da conta mantida pelo caseiro numa das agências locais. Não se sabe bem como o ministro descobriu que o rapaz tinha uma poupança lá. Tudo seria esquecido se o extrato não tivesse saído numa revista semanal, que em seguida estampou dez páginas de publicidade da referida instituição, cujo bordão é ?vem pra Caixa você também?. O caseiro foi…
– Está faltando algo – falei, enquanto meu amigo reabastecia o cachimbo com fumo da Virgínia Ocidental. – Não vai dizer que foi o ministro quem entregou a cópia? Aí também é demais…
Holmes acendeu o cachimbo e ao soltar as volutas azuladas da fumaça que adocicava o ambiente, abriu um sorriso e proclamou:
– Não, meu caro, lá as coisas ocorrem de modo natural. Até no Senado se reconhece isso. Alguém largou o papel em cima duma mesa, entrou um repórter abelhudo, meteu-o no bolso e saiu voando para a redação. Só que em tempo recorde a polícia descobriu que a ordem tinha partido do infeliz ministro. Um estrondoso tiro no pé!
A essa altura soou, no andar térreo, a voz da sra. Harmond avisando que o almoço estava servido.
Ivan Schmidt é jornalista.