Ivan Schmidt
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) continua em evidência. É a única organização de base popular que continua avançando em termos da luta abraçada desde a fundação, qual seja, a consecução da reforma agrária. Influenciado por padres europeus que vieram ao Brasil na década de setenta, o movimento recrutou sua massa entre pequenos agricultores atingidos, em primeiro lugar, pela perda das terras à vista de financiamentos que não conseguiam pagar e, como seqüela, pelo êxodo rural que acabou urbanizando a maioria da população brasileira.
Originário do Sudoeste do Paraná, o MST migrou rapidamente para os demais estados da região Sul, tendo hoje capilaridade nacional. É uma organização mantida por contribuições vindas do exterior, especialmente de instituições européias não governamentais ou de fundo religioso, embora valha-se de recursos obtidos das três esferas da administração pública.
Há quem afirme que os próprios militantes não se excluem da obrigatoriedade de contribuir, mesmo em menor escala, para a manutenção do movimento.
A marcha para Brasília, concluída esta semana, foi mais um sucesso do MST e de sua liderança máxima, personalizada por João Pedro Stédile. Mais de doze mil pessoas participaram da caminhada final de 200 quilômetros, apoiados por 400 ônibus, dezenas de caminhões, ambulâncias, ambulatórios médicos, cozinhas desmontáveis, rádio comunitária e assessoria de imprensa, entre outros itens que indicam o grau de sofisticação que a organização desenvolveu.
Nenhum incidente foi registrado durante a caminhada de 17 quilômetros por dia, em média, a não ser o confronto fugaz com a Polícia Militar do Distrito Federal. Tirante ferimentos leves em policiais e militantes, nada de grave aconteceu. Cumprido o objetivo da marcha, entregue o memorial com as reivindicações de sempre ao presidente da República, num encontro em que Lula esteve francamente disponível para sorrisos, abraços e tapinhas nas costas, os participantes foram dormir e na manhã desta quarta-feira iniciaram a viagem de volta.
Mais, muito mais que os partidos políticos, o MST pode orgulhar-se de sua organização quase perfeita, montada sobre comissões diretivas que repartem em porções rigorosamente idênticas as responsabilidades de gerir o movimento. O destaque midiático exercido por Stédile, na verdade, é conseqüência de sua escolaridade, facilidade de expressão, traquejo político e habilidade para enfrentar mesmo os desafios mais temerosos.
Num cenário adverso para a maioria dos partidos, carentes de líderes carismáticos e convincentes, sem contar com instrumentos apropriados para a formação de novos quadros (o MST chega a ter escolas de educação política), talvez seja esse movimento popular o mais próximo da práxis esperada do chamado proletariado.
Sabe-se da simpatia do MST em relação ao PT, embora o partido não tenha sido jamais seu canal próprio de expressão e luta, e tampouco de sua organização. Em muitos casos soaria melhor dizer que o PT ergueu a bandeira da reforma agrária e outras causas populares, visando atrair o apoio dos trabalhadores sem terra.
O processo de consolidação do MST como movimento de massa obedeceu a ordem natural das coisas no campo das relações sociopolíticas. O enfoque de George Lukács ajuda a assimilar a idéia: ?O conhecimento torna-se ação, a teoria torna-se palavra de ordem, a massa ativa, seguindo as palavras de ordem, incorpora-se de forma cada vez mais forte, consciente e estável no nível da vanguarda organizada. As palavras de ordem corretas dão origem organicamente às condições e às possibilidades da organização técnica do proletariado em luta?. (História e consciência de classe, Martins Fontes, SP, 2003).
O PT, por ser o partido gestado com o propósito fundamental de organizar a massa para a luta política, na qual obteve relativo sucesso até ser aparentemente seduzido pelos ademanes burgueses, perdeu a força moral que se realimentava na confiança espontânea da maioria.
Nesse momento, o PT deixa de ser a forma visível e organizada da consciência da classe trabalhadora que pretendeu representar, e é lastimável que essa perda grave tenha ocorrido tão cedo.
O MST continua na trilha que pisou desde o primeiro dia. Sua luta é pela reforma agrária e a consciência da classe que permeia todas as instâncias do movimento continua subordinada a essa finalidade. Os meios, a tática e as estratégias de luta não raro são impugnados com certa acrimônia pelos conservadores, que neles vêem a sublimação dos métodos esquerdistas.
É que muitos não se conformam com a petulância das classes subalternas em reivindicar uma nesga de sol para lhes aquecer as enxovias.
Ivan Schmidt é jornalista.