Ivan Schmidt

continua após a publicidade

Vivemos num país em que ?milhões de pessoas não conseguem ter acesso a seus direitos?. As palavras entre aspas são de autoria da ensaísta Beatriz Sarlo e referem-se, no contexto original, à Argentina, onde nasceu. Mas essas palavras se amoldam de forma tão estrita à realidade brasileira, a ponto de se duvidar da vantagem de continuar contando tantas piadas de mau gosto sobre ?los hermanos? do Rio da Prata – como se fazia antes com os portugueses – à medida que se contempla o oceano de mazelas em que nosso povo foi abandonado pela incúria da maioria dos dirigentes políticos.

Descrevendo a pobreza da periferia de grandes cidades argentinas, como se estivesse a flanar por Curitiba ou outra capital qualquer, Beatriz documentou o quadro tétrico de ?crianças adormecidas pela fome, bebês catatônicos, velhos enlouquecidos pelas privações enclausurados na obsessão de sua miséria, corpos curvados de homens jovens rejeitados por um mercado que não precisa mais deles?.

Mulheres de trinta anos, oito filhos e um marido desempregado ou preso, por isso, parecendo tão ?velhas?, com os corpos aniquilados pelo pesado ônus de uma dívida que jamais será paga: ?A violência, a ruptura de todos os laços sociais, a selvageria da droga são desafios vistos como se fossem a única afirmação possível da identidade?. Para os que desejam saber mais sobre a obra da pensadora, recomenda-se a urgente leitura de Tempo Presente (José Olympio, RJ, 2005), onde se depara com o retrato sem retoques duma nação perdida nos labirintos da extrema pobreza. E, pior, espelho implacável em que o Brasil poderá vislumbrar a própria máscara.

Enquanto a barbárie da miséria derruba milhões, dirigentes políticos ensandecidos reivindicam uma relevância imerecida e fingem não perceber a crueldade da guerra que dizima o que Beatriz Sarlo denomina de sujeito coletivo. Alguns desses personagens sinistros, na falta de vocabulário para convencer a massa, se esmeram no tom lamuriento de carneiros imolados sobre a pira das patranhas debitadas a certa imprensa que serve de instrumento à manipulação burguesa. Ou, talvez, por terem sido privados da pseudo-sapiência advinda da leitura de pesquisas de opinião, espécie de ?mapa de um território que antes acreditavam conhecer porque o povo definia seus limites e sua fisionomia?. É passado o tempo em que político ?lia? a pesquisa e acreditava saber o que a massa pensava.

continua após a publicidade

Assim como está carcomido pelo uso infame que dele tantos fizeram ao longo da História, o culto à personalidade, na verdade, um desejo de poder que ainda atormenta espíritos mortalmente quebrantados pela indiferença popular. Escreveu Tzvetan Todorov que ?o culto à personalidade não caiu do céu nem se reproduziu por acaso em todos os países comunistas?. E sabia do que estava falando, porquanto natural da Bulgária viu-se compelido a buscar asilo na França para fugir da escravização das consciências, imposta pela Cortina de Ferro formada no imediato pós-guerra.

Não foi sem razão que perenizou suas impressões no livro a que deu o título sugestivo de O homem desenraizado (Record, RJ, 1999), no qual discorre sobre a fisiologia mesma do totalitarismo de Estado, peçonha que subjugou e continua subjugando indivíduos deformados pela megalomania. Diz ele: ?O Estado totalitário não admite nenhuma pluralidade de opiniões; qualquer desacordo era então passível de esmagamento?. Infelizmente, há indivíduos picados pelo mesmo inseto em contextos e longitudes diversos.

continua após a publicidade

É forçoso recorrer a outro estudioso da matéria para assimilar as razões que levam um homem a agir de modo tão estúpido. Trata-se do filósofo francês Raymond Aron, já falecido, que rastreou a ascensão de Stalin no mundo comunista, no período chamado de Grande Mentira, no qual o arbítrio do ?guia genial dos povos? se arraigou de tal forma que ele se arrogava o direito de decidir qual era a interpretação correta do marxismo. ?O estilo do regime foi determinado pela personalidade de Stalin, ao mesmo tempo medíocre e monstruosa?, escreveu Aron para concluir que mesmo o conceito de Lênin sobre o ?centralismo democrático? foi completamente desvirtuado pelo irascível ditador.

Em compensação, a lucidez expositiva de Aron nos fornece a chave onde encerrar os equívocos da emulação tacanha de proscritos como foi Stalin: ?Um déspota adorado em público e odiado em particular?.

Ivan Schmidt é jornalista.