E, então, gente, decorridos 40 anos da morte de Che Guevara, quando chefiava um grupo de guerrilheiros nas selvas da Bolívia no afã de iniciar a prometida semeadura de Vietnãs, qual foi o destino imposto sobre a América Latina: o trágico ou a revolução? A pergunta propriamente dita foi enunciada pelo teólogo belga residente no Brasil, Conrado Detrez, que no currículo ostentava àquela altura, entre outros itens, a autoria da versão francesa do romance Os pastores da noite, de Jorge Amado. A instigante questão fazia parte do extenso artigo que publicou na Revista Civilização Brasileira, na edição referente a março/abril de 1968.
Detrez expunha a idéia de que no território latino-americano o trágico ocorrera com extrema crueldade no extermínio das civilizações pré-colombianas e na exploração escravagista do negro, reproduzindo-se à época em que escreveu na opressão social, política e econômica de seus descendentes, que continuavam vivendo em regime de semi-escravidão.
A outra face da mesma história, segundo o teólogo, entrevia-se naquilo que chamava de epopéia, ?um fenômeno essencialmente ibérico realizado com o êxito de dois grandes projetos históricos: a descoberta e a dominação das Américas e, mais tarde, a consecução da independência política?. Para Detrez, Bolívar e San Martin são personagens épicos, ao passo que Atahualpa e Ganga Zumba são personagens trágicos. Será de grande proveito para o alargamento da compreensão do panorama latino-americano refletir com a profundidade necessária no seguinte arrazoado: ?Com os primeiros não parou a epopéia latino-americana; pois deixaram para seus sucessores a realização dos projetos de independência econômica, de unificação continental e de criação de uma civilização e de uma cultura originais e próprias?.
O intelectual engajado assumia que a revolução cubana dava prosseguimento à epopéia iniciada com a descoberta, atribuindo a condição de novos homens épicos a Fidel Castro e Che Guevara. Contudo, não se permitia dispensar uma dose maciça de inquietações quanto ao futuro, sendo a mais explícita a probabilidade da epopéia se transformar em tragédia com a solução de continuidade do projeto revolucionário, seu esvaziamento ou aniquilação.
Quem viveu e acompanhou o desenrolar dos fatos políticos e sociais do subcontinente nos últimos 40 anos corrobora, pelo menos em parte, a lucidez analítica de Conrado Detrez: ?Nesse sentido, o maior fenômeno trágico da América Latina de hoje seria o aniquilamento do estado socialista de Cuba, pois a revolução nele continua?. Também se percebia no contexto enfocado, como um dado indubitável, o signo da epopéia revolucionária que empolgava a maioria dos países da América do Sul e, de resto, todo o Terceiro Mundo.
Não é possível, entretanto, reduzir os danos proporcionais e aterrorizantes da contrapartida dos longos anos de dominação dos regimes de exceção nessa parte do mundo, sobretudo no Paraguai, Brasil, Chile, Uruguai e Argentina, com seus milhares de presos políticos, mortos e desaparecidos, vítimas da condenação mais odiosa registrada pela história da humanidade, os chamados delitos de consciência. No Brasil, em particular, buscou-se o aniquilamento dos ideais revolucionários com a entronização do mito desenvolvimentista baseado em feitos históricos como a construção da Transamazônica, da Ponte Rio-Niterói e da Hidrelétrica de Itaipu, símbolos do chamado ?milagre econômico?, tão fugaz quanto uma bolha de sabão.
No início do século XXI, inúmeros países da América do Sul são governados por políticos de claro viés socialista, como Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, aos quais, entretanto, não se admite nem na mais tortuosa das hipóteses conferir a condição de personagens épicos. Ao contrário, o presidente venezuelano, travestido de herdeiro messiânico da epopéia irrealizada da transformação política dos povos da América, nada mais fez que expropriar os ideais do admirável libertador para neles assentar os pilares duma controvertida e oportunista revolução bolivariana.
Guevara foi preso e metralhado a sangue frio por milicos bolivianos treinados pela CIA e Fidel é apenas um vulto esmaecido da gloriosa conquista da Sierra Maestra. Não há heróis no Terceiro Mundo, onde o trágico mastiga a revolução em infindável banquete antropofágico.
Ivan Schmidt é jornalista.