A equivocada política de RH do eleitorado

Os jornalistas brasileiros, por meio de suas entidades representativas, travam ferrenha luta pela garantia do diploma de nível superior para o exercício da profissão. Criou-se, inclusive, a Coordenação Nacional da Campanha em Defesa da Formação Específica, voltada à sensibilização do Judiciário quanto ao julgamento do recurso contra liminar que dispensou a exigência. O tema, embora polêmico e objeto de opiniões divididas na sociedade, suscita interessante reflexão: como exercer cargos e funções sem a devida capacitação técnica e acadêmica?

É chegada a hora de o Brasil debater de forma mais objetiva tal questão, pois o conhecimento é a base do desenvolvimento das nações. Informação, cultura e expertise não são mais elementos exógenos ao sucesso profissional, das empresas e dos países. Constituem-se na essência do progresso individual e coletivo e de um projeto nacional de prosperidade, distribuição de renda e inclusão social. A grande maioria das empresas já percebeu isso e torna cada vez mais rigorosos e complexos os requisitos nos processos seletivos de recursos humanos.

Tal avanço é percebido no dia-a-dia. Nota-se crescente melhoria em cargos e funções que, há pouco tempo, não exigiam qualquer formação específica, determinado nível de escolaridade e expertise mínima. Serviços, comércio, indústria, agronegócio, sistema financeiro, área cultural, enfim, todos os segmentos avançam na proporção em que buscam profissionais mais preparados. O País ganha muito com essa transformação no mercado de trabalho.

O conhecimento implica, também, consciência do trabalhador quanto à responsabilidade inerente à sua atuação. Ou seja, paralelamente à expertise exigida para cada cargo e função, é preciso consciência cívica quanto à relação de causa-efeito do trabalho no contexto da sociedade. Prédios malconstruídos caem e provocam situações trágicas; automóveis com defeito causam sérios acidentes; um cálculo negligenciado pode prejudicar muito um consumidor; um texto jornalístico equivocado pode destruir de forma injusta a vida de um cidadão ou de uma empresa inocente ou garantir impunidade a culpados; a falta de transparência de um vendedor pode levar o consumidor a comprar uma roupa, alimento ou produto inadequados.

O trabalho é sempre um ato que provoca mudanças e implica conseqüências. Assim, quanto mais for orientado por conhecimento específico e cultura ampla, mais adequado, produtivo, eficaz e civicamente correto será. Partindo dessa premissa, pode-se concluir que faltam ambos os requisitos, ou pelo menos um deles, em parcela expressiva da classe política. Essa carência está evidente no presente cenário desolador da corrupção no setor público.

Na análise de requisitos para o exercício de cargos públicos, infelizmente nós, eleitores, temos sido muito incompetentes. Se os empresários e executivos tivessem nas empresas os mesmos critérios para contratar colaboradores que temos aplicado na ?seleção? de políticos, certamente haveria uma grande onda de falências no cenário nacional. Felizmente, como observamos, há expressivo avanço no recrutamento e seleção de pessoal, refletindo-se no aumento geral da qualidade no mundo corporativo.

Mas, na política, continuamos péssimos ?RHs?. Considerando que o voto, na prática, significa contratar uma pessoa para exercer determinada função (presidente da República, governador de Estado, prefeito, senador, deputado federal e estadual e vereador), temos sido muito negligentes. Ninguém contrata um gerente para sua empresa sem diploma universitário e até MBA, pois, nesse nível hierárquico, exige-se capacidade de discernimento, poder de decisão e responsabilidade para assumir atitudes capazes de comprometer a performance de um departamento da organização. Porém, ?contratamos? nas urnas ?profissionais? nem sempre qualificados para exercer o poder e responsabilidade de gerir orçamentos de bilhões e bilhões de reais, fazer leis que mudam toda a economia, decretar estado de sítio e emergência, decidir sobre a aposentadoria de todos os trabalhadores e o montante de impostos e juros que pagamos, alterar as normas e os códigos da Justiça e até declarar guerras!

Políticos sem expertise e o necessário embasamento cultural que lhes dimensione a exata responsabilidade dos cargos que ocupam são mais sensíveis à sedução dos corruptores. Chefes de Executivo sem formação mínima para o exercício do cargo podem não prevaricar, mas, às vezes, se omitem na fiscalização pela simples ausência de conhecimento. Evidencia-se isso nos escândalos investigados pelas CPIs de plantão e em tantos outros dissabores oriundos do estigma nacional da improbidade.

A reforma política – tão propalada e sempre adiada – deveria contemplar a competência para as funções públicas, estabelecendo critérios mínimos de formação para cada cargo. Caso isto não ocorra – o que é muito provável -, caberá a nós, eleitores, assumir a responsabilidade de ?recrutar? e ?selecionar? melhor os gestores da nação quando exercermos o direito e o dever do voto.

Milton Mira de Assumpção Filho, diretor da Editora M. Books, é membro da Academia Brasileira de Marketing (miltonmira@terra.com.br).

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