A crise e o calendário

Ainda não se pôde definir o governo Lula, quase dois anos e meio depois de ter iniciado, com base na avaliação de resultados de seus principais projetos. Aliás, pouco ou nada se soube desde então sobre as prioridades de governo, ou em que linhas primaciais o ente público pretendia mover-se com a finalidade de alcançar seus objetivos fundamentais.

Claro que é necessário reconhecer o voluntarismo inicial do Fome Zero e do Primeiro Emprego, bandeiras mais evidentes erguidas por um governo que chegava para suplantar o medo plasmado na grande massa pelos eternos pregoeiros do fracasso, instilando na população menos favorecida a esperança de melhores dias.

Foi posto em prática pelo Ministério da Educação o sistema de quotas nas universidades públicas, medida bastante contestada por diferentes setores da sociedade e longe de ser considerada unanimidade em termos de acerto.

O governo, não raras vezes, transfere para seu ativo sem fazer-se de rogado, as conquistas sazonais de determinados setores da economia, como o agronegócio, festejando os resultados como se esses fossem conquistados por méritos próprios. Talvez, a justificativa razoável que o governo possua para mordiscar uma fatia do sucesso do agronegócio, autêntico horror na concepção da esquerda petista e do MST, é a tradicional rolagem das dívidas contraídas pelos grandes produtores rurais junto ao Banco do Brasil.

É o que se está vendo mais uma vez, quando os produtores contam como maior defensor da rolagem da dívida gigantesca o ministro Roberto Rodrigues, principal figura do sistema cooperativista e, por conseguinte, imbatível apologista do agronegócio como cornucópia da agricultura capitalista.

Como o governo não planta e nem colhe, também não se meta a bancar o durão em se tratando de ter de volta, com os juros correspondentes, o dinheiro que emprestou por meio de sua maior instituição bancária, para custeio das safras e investimento em tecnologia. Assim, fica tudo azul quando a ele se concede uma migalha do bolo e se permite que solte tantos rojões quanto queira, exaltando o extraordinário desempenho da agricultura de exportação, conquanto esta não tenha pejo de exigir mudança da política cambial, desvalorizando o real frente à moeda americana, para ganhar ainda mais.

Uma festa que o governo poderia ampliar ao infinito, pelo simples fato de seguir à risca parâmetros de política macroeconômica mais ortodoxos que os aceitos pelos neo-liberais do governo FHC, se tão-somente decidisse capitalizar também o atordoante lucro dos bancos.

Ora, se o governo esbanja ufanismo com os números produzidos pelo agronegócio, por que não age da mesma forma em relação aos ganhos astronômicos do negócio mais rentável que se tem notícia desde a chegada de Pedro Álvares Cabral aos suaves remansos de Porto Seguro? Não haveria a menor estranheza, tendo em vista o estreito vínculo entre a prática aberta da usura e os postulados que regem nossa economia.

Enquanto isso, e aí afloram os resmungos da patuléia, não se vêem políticas públicas indutoras de programas de absorção da massa de desempregados, e pior, encurtando de forma impiedosa a margem de alento de milhões de jovens lançados ao mercado de trabalho a cada ano. A carga violenta de impostos levou o empresário a eliminar drasticamente o número de contratações, alimentando a chamada informalidade. Apesar de não ser criação desse governo, no entanto, pouco se fez para estancar a dinâmica galopante de um processo que atingiu quase a totalidade das famílias de renda média e baixa.

Os serviços essenciais devidos pelo governo à população, contando-se entre eles os setores privatizados, continuam excessivamente caros e, em muitos aspectos, exibindo uma precariedade caótica. Basta ver o estado da malha rodoviária, a estrutura de saúde pública, o acesso dos pobres à educação, esporte e cultura, além de ganhos básicos de civilização comuns nas sociedades desenvolvidas.

O governo adentrou numa câmara de vento cujas rajadas sopram com força destruidora. É um momento espinhoso para o presidente, na medida que impõe decisões cortantes como a exoneração do colaborador direto José Dirceu da Casa Civil. Turbulência que ainda poderá fazer um grande número de vítimas.

Lula está-se valendo da resistência adquirida nos muitos caminhos que percorreu, até aqui impecável em sua forma de agir. Todavia, não será capaz de encarar sozinho o inferno astral. Destarte, a crise será também válida para identificar quais são os verdadeiros amigos do presidente e os dispostos a sacrificar veleidades pessoais em favor do projeto cujo maior inimigo é o calendário.

Ivan Schmidt é jornalista

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