A tradicional entrevista da edição de domingo de O Estado foi com o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, o paranaense Paulo Bernardo (PT). Antes de mais nada, é imperioso registrar que ele é o político local que tem, em toda a história republicana recente, o posto de maior importância. Ocupa um ministério que já teve como titulares Celso Furtado, Roberto Campos, Delfim Netto, João Paulo dos Reis Velloso, Mario Henrique Simonsen, João Sayad e José Serra, entre outros grandes nomes da política e da economia brasileira. Pelo tempo em que comanda a pasta, passou a ser um dos principais expoentes da política atual. Só por isso merece o respeito de toda a sociedade do Estado.
Mas, nesta conversa com a repórter Elizabete Castro, o assunto não foi economia – e certamente Paulo Bernardo festejaria a recuperação gradual do País em meio à tremenda crise financeira internacional. O assunto foi política, foi o futuro do Paraná, foi a sucessão do governador Roberto Requião (PMDB), que termina seu mandato em 31 de dezembro de 2010. Pré-candidato do PT ao Palácio Iguaçu, o ministro também joga com a possibilidade de aliança, seja com o vice-governador Orlando Pessuti (PMDB), hipótese remota, seja com o senador Osmar Dias (PDT), este o candidato dos sonhos de boa parte da cúpula petista, no Paraná e no diretório nacional.
Um trecho desta entrevista é revelador do pensamento de Paulo Bernardo, que reflete a estratégia do comando do PT local (que é presidido no Estado por Gleisi Hoffmann, esposa do ministro) e dos homens fortes do governo federal: “Nós temos uma prioridade que é a eleição presidencial. E estamos falando francamente. Na discussão para o governo do Estado, a maioria do PT gostaria de ter um candidato do partido. E nós estamos discutindo isso como uma das alternativas. Ou vamos ter candidato ou uma aliança. A possibilidade de fazer uma aliança com o PDT e apoiar o Osmar Dias passa pela possibilidade dele apoiar a Dilma para a Presidência da República. Fora isso, não tem conversa. E mais: tem gente no PT que faz a mesma pergunta sobre o senador Osmar Dias. Será que ele é candidato a governador para valer? E eu já falei para ele e para o Lupi (Carlos Lupi, ministro do Trabalho) que nós queremos coligação com o PDT”.
Quer dizer – pragmático como seu líder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro do Planejamento está pronto para abdicar dos interesses pessoais em nome de um palanque forte para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Paulo Bernardo se preparou por longo tempo para governar o Paraná, é um dos políticos mais preparados do Estado, e seria sem dúvida um forte candidato. Mas não vai deixar seu partido refém de suas vontades. Vai tentar fazer a aliança que o PT nacional pretende até quando puder. Se tiver sucesso, ótimo – e sai candidato ao Senado. Se não tiver, vai tentar o governo.
E esta foi apenas a primeira forte declaração de apoio do ministro a Osmar Dias. A entrevista é pautada pela manifestação inicial, e Paulo Bernardo sai dela como avalista de uma possível aliança entre PT e PDT. Além disso, coloca o senador em sinuca de bico: de um lado, apóia reiteradamente Osmar como candidato ao governo do Estado; de outro, cria uma indesejável (neste momento) indisposição dele com o PSDB, com quem segue mantendo contatos. Da forma que o ministro fala, há uma negociação em fase adiantada com o PDT, com o conhecimento e a participação do senador.
E a confiança do ministro é tanta que ele chega a criticar a possível união entre PMDB e PSDB, fazendo seu jogo para tentar atrair os peemedebistas para o palanque do PT (de Dilma). Resta saber se um “blocão” pró-Dilma (pró-Lula) não vai ser mal-recebido pelos dissidentes dos três partidos, fortalecendo uma candidatura tucana, seja do prefeito de Curitiba, Beto Richa, seja do senador Alvaro Dias.