A ciência política no âmbito das universidades

Diz-se que, hoje, a sociedade se qualifica pelo conhecimento. Então, se assim é, integramos e, portanto, vivemos a sociedade do conhecimento. Será?

Não proclamam os entendidos, politicólogos, pedagogos, sociólogos, teósofos, teólogos e outra gama enorme de sábios, além de estadistas, que o conhecimento obriga comunicação à comunidade que com ele e dele há de se beneficiar?

Estas perguntas, a primeira de semblante cético e a segunda com cara de cobrança, encontram, atualmente, eco social?

A sociedade compartimentada e burocrática que estamos compondo, reproduzindo e apologizando, responde às exigências fundamentais do Ethos Científico no que toca ao quinhão da comunidade? Talvez não, ao menos se dermos atenção às estatísticas referentes às ações governamentais praticadas pelos seus poderes decorrentes.

E agora? Farsa, falácia ou subcultura? E lá fora, bem longe, o noticiário é diferente? Nos grandes centros mundiais de produção científica, o Ethos Científico se cumpre adequadamente?

Seja lá o que for e como for, não se descrê, em nenhum instante, do direito comunitário ao conhecimento e aos seus efeitos, sobretudo, se dermos à ciência o foro de instituição social.

Voltamos ao título deste artigo, mas não descartamos algumas interrelações entre cabeçalho e texto, embora eivadas de um ou outro chiste irônico.

A ciência política, consideradas as raízes de sua adjetivação, não tem como não responder ao primado comunitário do Afã Científico. Por este aspecto, destaca-se, com distinção, entre suas congêneres, as demais ciências humanas; não se vê, com tanta clareza, nenhum outro título de ?saber? tão intimamente ligado ao homem. Daí: ?Zoon Politikon?.

A ciência política, para fazer jus a tal conceito, haveria de se fazer sentir no âmago da sociedade estabelecendo contextos mais harmônicos em que, ao menos, os privilégios e as injustiças fossem suavizados. Este tipo de conhecimento, numa sociedade que se diz ser o que é, senão partilhado e compartilhado, nega-se a si mesmo, bem como a sociedade que adjetiva qualificadamente.

Atribuir ao poder político ou ao Estado o desvio dos destinos do conhecimento equivale a se cair na vala das desculpas inconseqüentes. O Estado, neste particular, talvez não tenha se desincumbido de toda sua obrigação mas, em frente, deu um passo ultraimportante: dispôs a ciência política no elenco das disciplinas universitárias; no caso do Brasil, em cursos de grande penetração social como, por exemplo, os de direito.

A discrepância entre a prática social positiva e o ensino da ciência política pode encontrar explicações em duas linhas antagônicas de raciocínio, a saber, consta nos cursos superiores do País ?pro forma? ou, dela, o ensino está descamisado ou com seus objetivos sociocomunitários distorcidos. Seja como for, tais abusos são inadmissíveis pela e na sociedade do conhecimento, se é que esta leva a sério a sua superqualificação.

Pedro Henrique Osório é professor universitário.

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