Estou convencido de que há materialidade suficiente nas provas coletadas até o momento, em diversas frentes, seja no âmbito das comissões parlamentares de inquérito em andamento no Senado Federal ou no exaustivo e primoroso trabalho de jornalismo investigativo que a mídia brasileira ofereceu à sociedade, para no mínimo caracterizar que houve omissão por parte do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da seqüência de atos ilícitos cometidos na sua gestão.
Em face dessa convicção pessoal, não encontro justificativa plausível capaz de isentar o presidente da República da responsabilidade pelos escândalos de corrupção que assistimos. Estamos frente a um governo que se envolveu em um lamaçal de ilicitudes, responsável pelo surgimento de um pântano em plena Praça dos Três Poderes, na capital federal.
Nas comemorações dos 26 anos do Partido dos Trabalhadores, o presidente Lula recomendou que a sua legenda partidária apresentasse desculpas ao povo brasileiro. Uma reprimenda risível diante da magnitude e gravidade dos crimes cometidos.
Os episódios denunciados pelas CPIs, para citar apenas alguns deles, como os casos envolvendo a Gtech, a Caixa Econômica Federal, o BMG, o assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel, os desvios de recursos nos fundos de pensão das estatais e o uso indevido dos cartões corporativos pela Casa Civil da Presidência da República, constituem libelo acusatório suficiente para impugnar qualquer governo de uma democracia sob a égide do Estado democrático de direito.
O rol infindável de denúncias foi comprovado por intermédio de documentos e depoimentos, como o do publicitário Duda Mendonça, ao admitir para toda a nação que recebeu remuneração por serviços prestados à campanha que elegeu o presidente Lula em conta aberta em paraíso fiscal.
As figuras deletérias que povoaram o noticiário diário, como por exemplo a personificada por Waldomiro Diniz – personagem-chave que operou à sombra das instituições, fazendo as intermediações escusas entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional -, impune até o momento, entre tantos outros protagonistas que operacionalizaram o mais azeitado e complexo esquema de falcatruas da República, estão incorporadas à galeria de vendilhões da pátria.
Não podemos deixar de registrar que existem exceções honrosas na militância e nos quadros do Partido dos Trabalhadores, mas, como regra, o partido que na oposição afirmava categoricamente que se diferenciava dos demais partidos, no governo adotou o discurso que é igual às outras legendas e siglas partidárias.
Como recurso cênico de improviso, o atual governo lançou mão de eufemismos reiterados, revestindo práticas e ilícitos penais em roupagens etéreas e expressões alternativas que beiram o escárnio e a bazófia. Quem poderia imaginar que o ?caixa 2? seria alçado à condição de ?recursos não contabilizados??
Nesse cenário pouco ético, em que foram rasgados em praça pública postulados históricos e princípios cultuados por mais de duas décadas e meia, o partido da esperança foi transformado num covil de delúbios, silvinhos e tantas outras Land Rovers camufladas em garagens subterrâneas.
Na minha avaliação, o pleito de outubro próximo e a campanha eleitoral que o antecederá serão o palco no qual o contraditório vai se estabelecer de forma plena, possibilitando que haja a contestação das ?partes? (com direito a réplica e a tréplica) e a soberana decisão e impugnação do grande magistrado da nossa jovem democracia: o povo brasileiro.
Alvaro Dias é senador e vice-presidente nacional do PSDB.