Finalmente, o governo brasileiro se deu conta da urgência na tomada de medidas cautelares para suavizar o quanto possível a aterrissagem na economia interna, da agourenta crise financeira que explodiu nos Estados Unidos no último dia 15 de setembro e se espalhou pelo mundo. O governo anunciou que está pronto para gastar até US$ 20 bilhões (10% das reservas cambiais), com o objetivo de cimentar as fissuras que começam a aparecer na estrutura do mercado de câmbio, dando a conhecer o esboço da política fiscal destinada a domar a crise ao longo de 2009.

O portador do recado de que estava na hora de vender dólares foi o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que segundo os jornais, se encontrou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na manhã de quarta-feira, para fazer uma advertência sobre a falta de liquidez no mercado de câmbio e a influência altista sobre a cotação da moeda norte-americana, que no mesmo dia da conversa superou os R$ 2,50, para depois recuar mansamente.

Meirelles explanou ao presidente Lula que investidores em ativos brasileiros ordenaram vultosos saques para cobrir eventuais prejuízos no exterior, além do movimento natural da remessa de lucros e dividendos das multinacionais que operam no País. Também houve pressão sobre o dólar a partir da intensificação da busca de divisas por parte das empresas exportadoras. O governo, ao que parece, foi surpreendido pela inesperada notícia de que grupos voltados para o mercado externo entraram em dificuldade, em face da perda de valor da moeda brasileira. Chegou-se a desconfiar da existência de tendência especulativa, tanto que o próprio Banco Central e a Câmara de Valores Mobiliários (CVM) decretaram uma varredura meticulosa do setor para levantar o número exato de empresas com problemas causados pelo câmbio.

A decisão de utilizar até 10% das reservas cambiais está lastreada na redução do superávit primário estimado para o presente exercício em 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB), para 3,8% no exercício vindouro. A diferença foi calculada em cerca de R$ 19 bilhões e será inteiramente investida em projetos da área de infra-estrutura. Enquanto isso, para manter a liquidez do mercado de câmbio o BC insistirá nos leilões de moeda norte-americana.

Para expressar a verdadeira dimensão da crise, Dominique Strauss-Kahn, ex-ministro francês da Economia nos anos 90s e, atualmente, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), aproveitou o gancho da reunião anual do FMI e do Banco Mundial em Washington, nesse final de semana, com a presença dos ministros das finanças dos países mais desenvolvidos do planeta em Washington (G7 e G20), reiterando que “não existe uma solução doméstica para uma crise como esta”. Ele concluiu que “todas as ações solitárias devem ser evitadas, senão condenadas”. Strauss-Khan reafirmou que o “o mundo está à beira de uma recessão global”, com base em previsões do FMI de taxas de crescimento negativas ou próximas de zero nas economias avançadas em 2009. Segundo a entidade a economia brasileira irá crescer 5,2% esse ano e 3,5% no próximo, superando a média dos países da América Latina.

O pior dos cenários, entretanto, é protagonizado pelo próprio FMI que hoje dispõe somente de US$ 250 bilhões para emprestar aos países em dificuldade financeira, na verdade, uma minúscula partícula quando comparada ao rombo de US$ 3 trilhões que os governos dos Estados Unidos e da União Européia estão fazendo das tripas coração para cobrir. O governo britânico anunciou o lançamento de um pacote de 500 bilhões de libras (US$ 867 bilhões ou R$ 1,9 trilhão) para socorrer o sistema bancário nacional, embora ninguém ouse garantir que essa ajuda de emergência seja suficiente.

Com a viagem de Mantega e Meirelles para Washington, um constrangido ministro Paulo Bernardo (Planejamento) foi escalado para admitir que a crise desembarcou e, na melhor das hipóteses, levará uns dois anos para ser vencida.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google