A batalha de Doha

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, o diplomata Celso Amorim, está vivenciando uma das experiências mais desgastantes ao longo de sua profícua carreira profissional, com reflexos inevitáveis no plano pessoal e, como não poderia deixar de acontecer, atraindo para o País uma inequívoca manifestação de reprimenda e antipatia. Tudo isso porque, há alguns dias teve a extrema infelicidade de comparar a putativa falta de interesse dos países ricos em esclarecer os parceiros pobres sobre o real andamento das negociações agropecuárias na Rodada Doha, aos métodos utilizados por Joseph Goebbels, principal mentor da asquerosa propaganda do III Reich.

Os governos dos Estados Unidos e da União Européia, justamente os povos que mais de perto guardam na memória as agruras sofridas durante a Segunda Guerra Mundial, quando milhões de vítimas foram imoladas no altar da insensatez, foram os primeiros a acusar o mal-estar originado pelas declarações de Amorim, considerando-as uma tentativa de dificultar as conversações da Rodada Doha que estão ocorrendo em Genebra. A fala de Amorim foi anotada durante uma rotineira entrevista coletiva aos jornalistas que cobrem o encontro promovido pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

O desconforto causado por Amorim, sobretudo junto às delegações de ministros e altos funcionários dos setores da diplomacia e comércio exterior dos governos dos Estados Unidos e União Européia, se agravou pelo simples fato que a expressão copiada de Goebbels foi a iníqua metáfora de que a mentira, quando repetida mil vezes, acaba se transformando em verdade. Amorim pediu desculpas e reiterou diante de atônitos e confusos observadores internacionais que sua única intenção fora lançar luz sobre a premência de eliminar o mito de que as negociações agropecuárias tenham avançado e que, destarte, todo o interesse atual deveria se concentrar na negociação industrial.

“I’m sorry” (sinto muito) foi a frase mais usada pelo ministro Celso Amorim durante o final de semana, ele que havia se notabilizado pelo tom equilibrado e conciliador de suas intervenções nos anteriores e infrutíferos encontros convocados pela OMC para discutir o fechamento do pacote de normas de comércio internacional. Talvez por magnânimo espírito de solidariedade e compreensão, Amorim contou com o apoio de Peter Mandelson, comissário de Comércio da União Européia que procurou apaziguar os que pretendiam jogar mais lenha na fogueira do ressentimento ao declarar: “Deixemos Goebbels de lado”.

Em paralelo, a discussão sobre questões bilaterais de comércio entre países industrializados e emergentes reunidos no G-20 ganhou novos contornos com a tentativa da União Européia, Japão, Suíça e outros governos protecionistas quanto à criação de novas cotas para produtos de origem agropecuária, medida considerada pelos emergentes como um retrocesso no projeto de abertura das transações mundiais de produtos agrícolas. Um dos itens a figurar na cota seria o etanol, com a limitação da entrada do produto com tarifa menor a 142 milhões de litros anuais, algo em torno de 5% da média do consumo europeu entre 2003-05. O evidente contraste derivado desse novo enfoque aflora da projeção que a União Européia havia estabelecido para as negociações bilaterais com o Mercosul, ou seja, a cota anual de 1 bilhão de litros de etanol.

O impasse é grande e antecipa pela enésima vez o fracasso da Rodada Doha de comércio mundial. O mesmo Mandelson afirmou que a União Européia fez sua parte a favor dos países exportadores, concordando em aumentar apenas 4% a cota de importações agrícolas. Isso levará o governo dos EUA a persistir com a política de elevados subsídios à agricultura. Os emergentes clamam a restrição dos subsídios a algo entre US$ 13 bilhões a US$ 16,4 bilhões. Tio Sam, entretanto, faz ouvidos moucos.

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