A barbárie galopante

Chegamos literalmente ao ?coração das trevas?, em aproximação candente com o enredo entretecido pelo romancista Joseph Conrad, ao descrever atrocidades que desabam sobre seres humanos indefesos, alguns enlouquecidos pelas misérias do mundo e, outros, agentes declarados desse galopante processo de insanidade que a todos aniquila.

O pano de fundo obrigatório é o choque do Airbus com o prédio que abrigava uma agência de encomendas expressas da mesma empresa, no outro lado da movimentada avenida que margeia parte do Aeroporto de Congonhas, no começo da noite de terça-feira, 17, a mais pavorosa da história da aviação comercial do Brasil e da América Latina.

Lotado, o avião saíra de Porto Alegre com destino a São Paulo, mas por circunstâncias ainda ignoradas não concluiu o pouso programado, atravessando a pista em velocidade incompatível com a operação para arremeter sobre o leito da via pública, decerto no derradeiro e desesperado esforço do piloto para evitar a catástrofe. O ato final da tragédia – o horror – da última linha do romance de Conrad se materializou com o choque violento, a explosão e o incêndio que causaram a morte de mais de 200 pessoas.

O que dizer diante dessa barbárie? Em primeiro lugar, que é inconcebível aceitar a existência e o funcionamento de um aeroporto do porte de Congonhas, o maior centro distribuidor de rotas aéreas do País, numa das regiões mais urbanizadas da capital paulista. Coisas que só acontecem no Brasil e alguns congêneres do Terceiro Mundo, onde os interesses excludentes da elite são colocados acima do direito da maioria.

Para simples comparação, lembremos que os aeroportos mais importantes de Santiago, Montevidéu e Buenos Aires estão localizados a muitos quilômetros de distância de zonas urbanizadas, em cabal obediência a uma norma explícita das convenções nacionais e internacionais de segurança de vôo. No Brasil, tais realidades são desprezadas com uma desfaçatez verdadeiramente criminosa.

No admirável A rebelião das massas (Martins Fontes, SP, 2002), livro que começou a escrever em 1926 para retratar a condição humana da sociedade européia, o pensador espanhol José Ortega y Gasset afirmou na abertura do capítulo sabiamente intitulado ?O maior perigo, o Estado?, que ?hoje, a violência já é a retórica do tempo?, e a ?retórica é o cemitério das realidades humanas; quando muito, seu hospital de inválidos?. Sem a menor intenção de conferir ambigüidade às palavras do filósofo, também é justo afirmar que é dispensável qualquer esforço intelectual para compreender que as mesmas definem com precisão o momento atroz vivido pelos brasileiros.

Ortega y Gasset dizia que ?o Estado de nosso tempo é uma máquina formidável que funciona prodigiosamente, de uma maravilhosa eficiência pela qualidade e precisão de seus meios. Colocada no meio da sociedade, basta tocar numa mola para que suas enormes alavancas se ponham em ação e operem fulminantemente sobre qualquer parte do corpo social?.

No caso brasileiro, a fórmula terá espontânea assimilação se tão-somente for confrontada com a acuidade microscópica da máquina arrecadadora, cujo apetite, sem qualquer ironia, é comparado ao do rei das selvas.

Para o cidadão atordoado com a falta de sensibilidade humana e hombridade dos políticos investidos da função de governar – sem considerar a natureza dos métodos utilizados para a conquista do poder -, o filósofo espanhol traz um adendo instigante: ?Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatização da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda a espontaneidade social pelo Estado; isto é, a anulação da espontaneidade histórica, que definitivamente sustenta, nutre e impulsiona os destinos humanos?.

O ser humano é brutalizado pelo tratamento que lhe concede o Estado em nome de suposta ordem jurisdicional que faculta prerrogativas a indignos de exercê-las. A vida é demasiado preciosa para ficar à mercê das figuras sinistras que habitam os palácios.

Ivan Schmidt é jornalista.

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