O alagoano Aldo Rebelo, filho de vaqueiro e criado numa fazenda de Teotônio Vilella, tornou-se alguém na vida porque teve a felicidade de alfabetizar-se na pequena escola mantida pelo futuro menestrel das Alagoas na citada propriedade. Aldo tomou gosto pelos estudos e mais tarde, migrando para São Paulo, como milhões de outros nordestinos, teve o privilégio negado a tantos outros patrícios de continuar estudando.
Sua carreira estudantil bem-sucedida foi o início propriamente dito da militância política, como não poderia deixar de ser – como tantos jovens idealistas – atraído ele mesmo pelo credo marxista. Aldo foi eleito para a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), período em que enfrentou a suprema adversidade de ter contra a classe estudantil o regime militar.
O primeiro mandato de deputado federal foi conquistado pelo PMDB, já que os partidos comunistas, como o seu PCdoB, estavam impedidos de funcionar livremente. Como íntegro apoiador de Lula, foi convidado para assumir a responsabilidade da articulação política do governo, quando houve o primeiro tropeço do então chefe da Casa Civil José Dirceu, respingado pelo achaque de Waldomiro Diniz a Carlinhos Cachoeira, o rei da jogatina eletrônica em Goiás e de olho gordo no território fluminense.
Como se sabe, Waldomiro, antigo assessor de Dirceu, havia sido nomeado presidente da Loteria do Estado do Rio (Loterj), por influência do chefe da Casa Civil. Foi nessa função que aproximou-se de Cachoeira e levou adiante o intento de sacar algum por conta para reforçar o caixa petista, sem esquecer do 1% referente à remuneração pessoal pelos excelentes serviços de intermediação.
Desde que assumiu a coordenação política do governo, com a longa experiência adquirida na Câmara e o trânsito fácil entre os colegas, Aldo passou a sentir a presença incômoda de José Dirceu em seu caminho. Afável no trato e na conversa, o deputado com vários mandatos obtidos no Estado de São Paulo não conseguiu, entretanto, salvar do desastre a candidatura do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) à presidência da Câmara. A tarefa era espinhosa, porquanto o PT dividiu-se com o lançamento da candidatura avulsa do deputado mineiro Virgílio Guimarães.
Dispensado de suas funções com a reforma emergencial do ministério, na qual o presidente Lula ralou-se para salvar o governo e o próprio PT, Rebelo reassumiu o mandato na Câmara dos Deputados, onde sempre teve uma atuação de baixo perfil por sua incapacidade intrínseca de protagonizar candentes discursos ou bater boca com quem quer que seja. Aliás, é difícil encontrar na atuação parlamentar de Rebelo um projeto relevante, uma lei importante para o País.
Lembrou-se agora, com certa galhofa, ao ser eleito para a presidência da Casa, que um de seus principais projetos de lei foi a instituição do Dia Nacional do Saci-Pererê.
Pois estava Rebelo posto em sua vidinha parlamentar tranqüila, marcada pelo apego às conversas ao pé do ouvido e tentativas de harmonizar os contrários, quando lhe cai ao colo a candidatura desenhada para livrar da segunda derrota em disputa tão significativa quanto essa o remanescente do governo Lula. Severino ganhara em fevereiro pela oceânica incompetência da cúpula governista e perder outra vez significaria o antecipado velório do governo.
Aldo assumiu a responsabilidade da candidatura, embora soubesse de antemão que a vitória não viria apenas por causa de sua reputação e caráter inatacável. como reconhecem gregos e baianos. Não se poderá afirmar, porém, se conheceu e/ou concordou previamente com a ação trituradora do governo na Câmara. O empate em 182 votos no primeiro turno indicou o conspícuo equilíbrio existente entre as bancadas da situação e oposição. No segundo turno o governo não deixou por menos: os ministros dos partidos onde se aloja o baixo clero despacharam no local, o governo anunciou a liberação de R$ 500 milhões de emendas parlamentares e prometeu desbloquear o orçamento do Ministério dos Transportes. Por cima, acenou com a promessa de entregar o Ministério da Educação ao PL.
Os grandes cabos eleitorais de Aldo Rebelo, e a versão dificilmente será desmentida, acabaram sendo Severino Cavalcanti, José Janene, Valdemar Costa Neto, figuras proeminentes do mar de lama, e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), coveiro da candidatura do deputado Michel Temer, presidente nacional do partido.
Afinal, um esforço inaudito destinado a salvar as últimas aparências dum governo prestes a submergir na própria falácia. Além do desprezo a alguém acima de qualquer suspeita como Aldo Rebelo, que merecia ao menos respeito, não houve sequer pudor em usar os mesmos argumentos até então qualificados como artes do demônio.
Ivan Schmidt é jornalista.