A altivez de dona Ana Rita

Nas últimas semanas, Curitiba, Paraná e o Brasil se envolveram na história trágica de três famílias. De um lado, a luta dos pais de Gilmar Rafael e Carlos Murilo para ver a justiça ser feita e o acidente que matou os dois jovens ser investigado a fundo. De outro, familiares e amigos do deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho (PSB) tentando provar que ele não teve culpa no fato.

As notícias sobre o caso vão se acumulando e se complementando. A comprovação de que o deputado estava alcoolizado no momento do acidente (na madrugada do dia 7) é mais um dado que complica o político – que, internado em São Paulo, pode nem saber que sua vida está sendo destrinchada, e que a cada fato que vem à tona só aumenta a certeza de que houve imprudência ou mesmo dolo na tragédia.

Uma coleção de multas de trânsito, a carteira de habilitação suspensa e mesmo assim dirigindo, praticamente “pilotando” (em altíssima velocidade) um possante Passat alemão, e, para completar, ainda com alta dosagem de álcool no sangue – mais do que é considerado crime no Código de Trânsito Brasileiro. Este é o rosário básico de acusações que pesam contra o deputado. Muitas destas já se mostraram plenamente verdadeiras, restando somente a comprovação da velocidade no momento do acidente.

As famílias dos jovens mortos clamam por justiça e pela intervenção judicial. Contam com o total apoio da sociedade, que viu no caso uma redução do que acontece no dia-a-dia do País: os mais ricos e poderosos fazem o que querem e os menos ricos (ou pobres mesmo) acabam pagando a conta. O deputado Carli Filho, querendo ou não, sendo ou não, passou a ser o estereótipo de uma juventude dissimulada, descompromissada e irresponsável -mesmo sendo parlamentar, ou até mesmo por conta disso.

E a família, como fica? O pai do político é um dos mais importantes prefeitos do Estado. Fernando Ribas Carli, em seu terceiro mandato à frente da prefeitura de Guarapuava, é um nome consagrado no Paraná, sempre reconhecido como bom administrador, correto e justo. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, pediu calma aos que atacam o filho.

A repórter Joyce Carvalho, na edição de domingo de O Estado, relatou: “Carli também disse que não há comprovações de que o filho dirigia em alta velocidade. O prefeito declarou que está sofrendo também pelas famílias das duas vítimas e prometeu visitá-las em breve. Ainda garantiu que não houve pressão política para abafar o caso. Segundo Carli, existe um julgamento antecipado sobre os fatos do acidente”.

Depois da manifestação do pai, a mãe veio a público. Aqui cabe um parêntese: neste momento de profunda tristeza, foram as mulheres que assumiram um papel preponderante no caso. Voltando, a mãe do deputado deu entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo. E com desassombro, deixou claro que está profundamente decepcionada com o filho: “Tenho pensado onde que nós erramos. Você cria o filho, faz tudo por ele, ensina os primeiros passos, e de repente você se vê envolvida numa tragédia, uma dor dessas, onde a vida para”. Ana Rita Carli também afirmou que, se realmente houver culpa de Luiz Fernando Ribas Carli Filho, ele terá que pagar por isso.

Em um momento de profunda dor, na ante-sala do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, dona Ana Rita Carli deu uma demonstração de altivez. Foi mais realista que muitos dos agentes de segurança que acompanharam o caso, principalmente na primeira semana. Não deixou de pensar na saúde do filho, a quem não deixará de amar. Mas, em suas palavras, todos tiveram a certeza que ela é uma grande mãe, aquela que estará sempre ao lado do rebento, mas que não tapará os olhos diante de qualquer falha que ele possa cometer. E ele cometeu.

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