A agonia de Gaia

Dentre os temas desagradáveis sobre os quais tergiversar, a embromação do governo federal, a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados ou o parto da montanha do secretariado de Requião, escolho um que não vai chatear em demasia o paciente leitor deste espaço. De resto, um assunto que está chamando até a atenção do todo-poderoso George W. Bush, homem soterrado por todas as suspeitas: o aquecimento do clima planetário.

Como minha competência é zero para abordar tão meticulosa matéria, peço socorro ao cientista britânico James Lovelock, 86 anos, membro da Royal Society desde 1974 e professor visitante do Green College da Universidade de Oxford, considerado ?um dos maiores pensadores do nosso tempo e uma das figuras mais influentes do movimento ambientalista?, segundo publicações como a New Scientist e Observer. Sumidade que descreveu, em 1972, a chamada hipótese Gaia como ?invólucro esférico fino de matéria que cerca o interior incandescente? da Terra, Lovelock também a definiu como ?um sistema fisiológico porque parece dotada do objetivo inconsciente de regular o clima e a química em um estado confortável para a vida?.

Estou citando o surpreendente livro A vingança de Gaia (Intrínseca, RJ, 2006), cuja leitura faço questão de recomendar a todos quantos têm interesse ativista ou intelectual no assunto, aliás, formalizado em protocolo subscrito por cerca de 130 países, na cidade japonesa de Kyoto, visando adotar providências para cortar radicalmente a emissão de gases de efeito estufa até 2014. Uma guerra que, infelizmente, está sendo ganha pelos países industrializados, como os Estados Unidos, que se recusam a apelar para a imposição de medidas antipoluidoras. Mas que levará Gaia ao caos irreversível dentro de poucos anos.

Lovelock não está a fim de apavorar ninguém, embora cumpra o dever de informar: ?Estamos abusando tanto da Terra que ela poderá se insurgir e retornar ao estado quente de 55 milhões de anos atrás, e se isso acontecer, a maioria de nós e nossos descendentes morreremos?. Diz também que ?suspeitamos da existência de um limite, fixado pela temperatura ou pelo nível de dióxido de carbono no ar?, que uma vez ultrapassado, ?nada que as nações do mundo façam alterará o resultado, e a Terra mudará para um novo estado quente?, a tal ponto que ?nosso futuro é como o daqueles passageiros de um pequeno iate que singra tranqüilamente acima das Cataratas de Niágara, sem saber que os motores estão prestes a enguiçar?.

Como um terrível profeta, Lovelock lembra que os climatologistas acreditam que estamos perto do perigoso limite além do qual a mudança adversa terá início: ?A Terra não pega fogo, mas se torna quente o bastante para derreter a maioria do gelo da Groenlândia e parte do gelo da Antártida ocidental. Aos oceanos do mundo será então acrescentada água suficiente para elevar os níveis do mar em 14 metros. É triste pensar que quase todos os grandes centros urbanos atuais estão abaixo do que, em um mero piscar de olhos do tempo geológico, poderia ser a superfície do oceano?.

A tórrida chapa em que a Terra se transforma gradativamente é alimentada pelas 380 ppm (partes por milhão) de dióxido de carbono, segundo Lovelock, ?resultado da nossa poluição?. A mudança da atmosfera já provocada, acrescenta, é tão grande como a ocorrida entre as eras glaciais e os períodos interglaciais: ?Se a quantidade de dióxido de carbono continuar em 380 ppm, a expectativa é de um aumento semelhante de temperatura, porém, é mais provável que, ao continuarmos poluindo, ela suba para 500 ppm ou mais?. Então, dar-se-á o evento denominado cientificamente de ponto do não-retorno. A abominação da desolação, para usar linguagem apocalíptica.

Lovelock teve a bonomia de amenizar o impacto de seus oráculos citando que ?nada em ciência é certo, mas a teoria de Gaia é agora fortemente respaldada por indícios da Terra e mostra que resta pouco tempo para evitarmos as mudanças desagradáveis por ela previstas?. Não há como subestimar o repto bíblico: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Ivan Schmidt é jornalista.

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