A classe média é o pulmão das sociedades modernas e democráticas. É fator de estabilidade, equilíbrio e desenvolvimento na contemporaneidade. Nos EUA, é âncora sustentadora do extraordinário consumo da maior potência econômica global. Na Europa Ocidental, igualmente. Na Ásia, o Japão tem nela a base de sustentação do seu desenvolvimento. Nas emergentes Coréia do Sul, China e Índia, o seu crescimento é uma realidade dinâmica.
E no Brasil? Infelizmente o encolhimento da classe média pelo seu empobrecimento, com perda do padrão de vida e evaporação do sonho de ascensão social, está ocorrendo com grande dinamismo. Nas últimas duas décadas, 10 milhões de brasileiros foram expulsos da classe média. E a perspectiva para o futuro é de aumento daqueles que serão, igualmente, excluídos. Nos anos 80s, a classe média representava 31,7% da população economicamente ativa. No início deste século XXI, a queda foi alarmante: representa 27,1%.
A população é de 180 milhões de brasileiros. Integram a classe média 57,8 milhões, o equivalente a um terço dos brasileiros. Obviamente que essa redução é muito perigosa, já que reforça a polaridade entre ricos e pobres, abrindo perspectivas para radicalização e conflitos sociais. A classe média é uma espécie de algodão entre cristais na sociedade moderna. Dotada de escolaridade, com base informativa e crítica, é a maior expressão da opinião pública, vigilante e democrática.
O empobrecimento e a proletarização de vastos segmentos da classe média brasileira acaba de ganhar um excelente estudo. A Editora Cortez lançou o livro Classe Média – Desenvolvimento e Crise, dos economistas Márcio Porchmann, Ricardo Amorim e Ronnie Silva, no qual, após 16 meses de pesquisas, se formatou um retrato acabado da agonia e mutilação desse importante segmento da vida nacional. Sem emprego e renda, a classe média perdeu ?status?, reduzindo o padrão de consumo, passando a pagar itens básicos em preços ascendentes. Exemplo: o gasto com habitação, em 1987, representava no orçamento mensal 17,6%. Em 2003 representava 29,5%. Nos transportes, no mesmo período, o salto foi de 8,7% para 16,9%. Os gastos com telefone, escola e segurança aumentaram expressivamente.
Naquele livro fundamental, os seus autores enfatizam: ?O ajuste do mercado de trabalho se deu, principalmente, nos cargos historicamente de classe média, como gerente de empresas, administrador, professor universitário e cargos da burocracia pública e privada?. E destacou: A ?classe média-alta? teve relativa estabilidade no período, caindo a sua renda de 23,2% para 22,8%; já na ?classe média-média? os ganhos caíram de 32,2% para 23,1%; enquanto a ?classe média-baixa? passou de 44,5% para 54,1%.
O economista Márcio Porchmann, diante dessa realidade, constata que ?nesse ritmo será difícil construir um país menos desigual?. Ao que acrescenta o economista Waldir Quadros, da Universidade de Campinas: ?O que o Estado não proporciona, a classe média tem de bancar. Por isso, manter o padrão de vida está cada vez mais difícil?.
Veja o caso dos aposentados e pensionistas do INSS, que totalizam 19 milhões. Desses, 5 milhões recorreram aos empréstimos consignados, com desconto em folha pelos bancos, totalizando, até janeiro de 2006, 12 bilhões e 674 milhões de reais. A grande maioria da chamada classe média-baixa.
A origem dessa dramática situação tem uma única causa geradora. É o retrato do baixo crescimento econômico que devastou a economia brasileira nos últimos 25 anos. Ao invés dos investimentos produtivos, sobremaneira, no setor industrial democratizador do emprego e da renda, a prioridade do monetarismo ortodoxo aflorou no Brasil, e na América Latina, o financeirismo parasita e gerador da estagnação econômica. A própria exportação expressiva de produtos de baixo valor agregado não gera o emprego e a renda saudáveis para a maioria dos brasileiros. O financeirismo, as commodities agrícolas e minerais e setores afins, que são reducionistas do emprego e remuneram com baixos salários, também respondem pela marginalização da classe média.
Retomar a rota abandonada do desenvolvimento é o único caminho para colocar a economia brasileira no rumo certo. Gerando prosperidade, emprego e renda, fortalecendo a sua classe média. Ou manter a política econômica das últimas décadas, que é suicida. O economista inglês David Woodward, da New Economics Foundation of London, ao analisar o crescimento econômico e social no Brasil, constatou que no atual ritmo a distribuição de renda levará 304 anos para atingir os níveis dos países mais ricos.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991) e é autor de vários livros sobre a economia brasileira.