Ariane Holzbach

continua após a publicidade

Simples, conciso e alarmante: a palavra ?preconceito? registra mais de meio milhão de resultados no Google em menos de meio segundo. É mais do que a quantidade de habitantes da maioria das cidades brasileiras – enquanto o tempo gasto para realizar a pesquisa faz o caminho inverso: é muito menor do que o que se gasta simplesmente para dizer a palavra. Não adianta mais querer negar: o preconceito faz parte da sociedade brasileira e, pelo menos, tem sido combatido por várias esferas sociais. Contudo, apesar dos avanços, ainda é grande o percurso a se caminhar na luta em respeito às diferenças. Até porque a expressão, que já integra as cartilhas escolares, agrega muito mais casos do que as conversas de bar fazem crer.

Preconceito racial, especialmente contra negros, e preconceito sexual são dois importantes grãos de uma grande plantação, mas estão longe de ser os únicos. Para lutar a favor dos negros já existem dezenas de ONGs, boa parte da mídia, grupos independentes e organizados, professores decentes, políticos honestos e o inconsciente coletivo – graças a Deus! – do brasileiro.

Quase o mesmo se pode dizer em relação aos homossexuais, pois, além de extremamente organizados, não se cansam de lutar em nome da igualdade. Só que contra eles, entretanto, ainda subjazem inacreditáveis pré-conceitos, como o segundo o qual homossexualidade é uma ?disfunção? e poderia até ser curada (não é mesmo, presidente da Câmara, Igreja Católica e outras poderosas instituições?). Como beiram o insano, esses conceitos vêm, aos poucos, perdendo espaço, e a tendência é que o Brasil se torne mais tolerante com as diferenças sexuais.

Mas a luta mal começou. O que dizer, por exemplo, quando se fala em preconceito lingüístico (que acomete as pessoas que se comunicam sem seguir a chamada norma culta), contra analfabetos, pobres, estrangeiros, prostitutas, deficientes físicos, cegos, surdos, portadores de necessidades especiais, contra os que têm algum distúrbio neurológico (os ?loucos?), contra portadores do vírus da aids, tuberculosos, hansenianos, idosos, ex-presidiários, mães solteiras… O preconceito está tão incrustado na sociedade que até para escrever sobre ele temos que ser cuidadosos na escolha das palavras, pois podemos ser mal-interpretados a qualquer momento.

continua após a publicidade

Para estes, o maior problema é que poucas esferas sociais dão atenção ao preconceito que vitima tanta gente, muitos sequer os incluem na lista das pessoas que sofrem preconceito. Mas, por exemplo, só um ex-presidiário ou uma mãe solteira (pobres, claro) sabem como é difícil conseguir emprego quando o contratante fica sabendo que eles são ?diferentes?. Para um portador de HIV, então, ainda é mais complicado, pois além de lutar a favor da igualdade, ainda trava uma infindável batalha contra um inimigo oculto mas onipresente.

O brasileiro precisa aprender que pessoas são pessoas, independente do que fizeram no passado ou sofrem no presente. Por que uma prostituta não pode ser atendida normalmente quando vai à padaria do bairro? E só porque uma pessoa sofre de esquizofrenia não pode ser competente no serviço? E alguém que teve hanseníase, qual o problema em convidá-la para a festa ou conversar cara a cara com ela? E quando uma pessoa pobre entra num restaurante, não quer dizer que não vá pagar a conta. Em síntese: por que os que se dizem ?normais? consideram a existência de seres humanos ?diferentes? se estes pensam como os normais, nasceram de uma mãe como os normais, ficam tristes e alegres como os normais, querem uma oportunidade como os normais?

continua após a publicidade

Respeito e igualdade são pilares que todos queremos – e isto nada mais é do que um direito de cada um dos 180 milhões de brasileiros. Aliás, são atributos que nem deveriam mais estar em discussão: as pessoas têm o direito de ser como são e, com isso, ter as mesmas chances que os outros.

Afinal, o ter ?preconceito? é muito bem definido como sendo uma palavra que indica um conceito pré-adotado sem fundamentação séria. Aos intolerantes que não concordam com isso, resta-nos lutar do outro lado e nunca nos juntarmos a eles – pois aí sentirão o gosto do próprio veneno e saberão o que é ser desprezado por causa do seu modo de ser.

Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro. E-mail: arianediniz@uol.com.br