Em Rio Negro, território lapeano até 1870 e depois, em parte, também catarinense a partir de 1916 – acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina – nasceu onde hoje é a cidade de Mafra, no dia 11 de março de 1895, seu Tavico, o segundo filho do primeiro matrimônio de dona Ernestina Weinhardt Kuss que, com apenas 30 anos, viuvou de José Kuss, progenitor do honrado cidadão, cuja memória pretendo reverenciar neste escrito.
Morou Octávio Kuss em Antônio Olinto – então distrito de Rio Negro – e depois na Lapa, onde sua mãe exerceu o cargo de professora municipal, lecionando numa escola que existia, onde hoje é o Sanatório São Sebastião, com quem aprendeu as primeiras letras, aprimorando depois seus conhecimentos na escola do professor Raimundo, na cidade.
Ainda muito jovem, foi trabalhar em Lençol (SC) como servente de serviços gerais, em armazém de gêneros alimentícios junto à estrada de ferro São Paulo-Rio Grande. Ali, logo revelou-se exímio escriturário, o que lhe valeu o reconhecimento de suas qualidades pelo patrão sr. Serafim Amaral.
Nascia aí o empreendedor, que em 1917, em sociedade com seu padrasto Belarmino Xavier da Silveira, iniciava-se como empresário do comércio em Cerro Verde e três anos depois, transferia seu estabelecimento para Ponte Nova, sempre dentro do município da Lapa.
Essa sociedade foi desfeita em 1922 quando seu padrasto, veterano de 94, foi nomeado presidente da Junta de Alistamento Militar em São Mateus do Sul, e sua mãe, removida para São Miguel, próximo àquela cidade.
Continuou em plena atividade empresarial, montando uma serraria em Barro Branco onde utilizava como meio de transporte, um carretão por ele mesmo conduzido e tracionado por até oito cavalos. Logo depois adquiriu um caminhãozinho Ford que dirigia transportando toras para a serraria e madeira serrada para a Lapa.
Mais tarde com seu irmão Pedro fundou a firma Kuss e Irmão, constituída de uma serraria e fábrica de caixas para bebidas e ainda com outros sócios as Indústrias São Vicente de Palhoens, cuja sucessão deu origem à Incomate Ltda, até hoje em pleno funcionamento e dirigida por seu irmão, por parte de mãe, Alexandre Weinhardt da Silveira.
Iniciou-se na política a partir de 1945 com o fim da ditadura Vargas – que por 15 anos suprimiu as liberdades democráticas do País – tendo sido um dos principais fundadores na Lapa da UDN (União Democrática Nacional) quando foi candidato à Presidência da República, nas eleições de 2 de dezembro de 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes. Foi nesse tempo que ainda criança tomei gosto pela política.
Seu êxito eleitoral aconteceu no ano seguinte, na eleição estadual (governador e deputados) realizada em 19 de janeiro de 1947, cuja vitória udenista abriu caminho para nomeação de seu correligionário e amigo Boleslau Tyrka para um mandato tampão de prefeito. Tendo assumido o cargo em 17 de abril, no dia 30 de novembro Boleslau Tyrka transmitiu o cargo para o Octávio Kuss, eleito que fora nas eleições daquele ano, para chefe do executivo lapeano.
Os seus quatro anos de mandato marcaram, a meu ver, um dos mais profícuos e eficientes períodos da história política-administrativa da Lapa, não obstante a multiplicidade de dificuldades que teve que enfrentar e que iam desde a falta de recursos financeiros e humanos até a imensidão do município que governava. Compreendia então a Lapa também o que são hoje os municípios da Antônio Olinto, Contenda e Quitandinha, densamente povoados, fato que possibilitou mais tarde suas emancipações. No total eram 3.053 km2 com uma população de aproximadamente 52 mil habitantes (hoje a Lapa tem 2.095 km2 e aproximadamente 43 mil habitantes).
Dando prioridade no atendimento ao interior do município, seu Tavico conseguiu realizar a proeza de adquirir duas motoniveladoras, com as quais revolucionou a conservação de estradas, serviço esse feito então com enxadas e picaretas e pelos próprios munícipes.
Também, conhecendo a realidade da economia lapeana e suas potencialidades, conseguiu que o Ministério da Agricultura contemplasse a Lapa, com um posto agropecuário que grandes benefícios trouxe ao setor agrícola e pastoril, até hoje base de nossa economia. Para isso comprou e doou ao governo federal uma área de 126 alqueires no Passa Dois.
Um dos grandes problemas que a cidade enfrentava naquele tempo era a deficiência no abastecimento de água, cujo serviço era executado pela Prefeitura. Para resolver essa situação, construiu no alto da Lapa, um sistema de captação e recalque para reforço do reservatório existente.
E assim, resolvendo problemas da comunidade e com iniciativas importantes, cumpriu condignamente seu mandato, revelando-se um excelente e probo administrador público. Depois, foi ainda por duas vezes vereador, no tempo que essa função não era remunerada, 1951 a 1955 e 1959 a 1963, e presidente da Câmara, sendo que foi nesse segundo período, que meu pai Pedro Passos Leoni elegeu-se simultaneamente com ele prefeito da Lapa.
Juntamente com seus familiares, colaborou sempre com as entidades sociais, filantrópicas, e religiosas, principalmente em apoio ao monsenhor Henrique Falarz, quando da construção do Santuário de São Benedito.
Seu Tavico casou em 16/9/1922 com dona Maria da Glória Ribas Kuss e teve sete filhos, todos lapeanos: Antonina, Nair, Enelvina, Cacilda, Any Mary, Antônio e Maria de Lurdes, sendo que apenas Cacilda, casada com Antônio Marins, dedicou-se à política, tendo sido vereadora e presidente da Câmara. A outra filha, Any Mary, seguiu a carreira da magistratura, exercendo atualmente a alta função de desembargadora junto ao Tribunal de Justiça do Paraná.
Faleceu no dia 20 de junho de 1966, depois de pertinaz enfermidade em sua residência, situada na rua que hoje tem seu nome, rodeado de familiares e amigos. Um pouco antes de ser sepultado, tive a honra de dizer algumas palavras em homenagem àquele homem, cujo exemplo de vida, como cidadão e político procurei imitar, ao eleger-me prefeito da Lapa pela primeira vez três anos depois e nos outros mandatos.
Octávio José Kuss soube ser sempre um cidadão íntegro, idôneo, sincero, firme em suas atitudes, incapaz de uma mentira ou de uma traição, simples no trato, despretensioso, um homem na acepção completa do termo.
Sempre que vou ao cemitério, lembro e repito as últimas palavras que proferi em 1966 em frente ao seu túmulo. Ao seu Tavico, nossas flores, nossas lágrimas, nossas orações, nossa eterna saudade!
Sérgio Leoni – foi prefeito municipal da Lapa.