Uma das maiores honrarias que recebi, em minha vida, foi o galardão de membro da Academia Paranaense de Letras, onde ocupo a cadeira n.º 21. Quando ali fui acolhido, não podia imaginar que, justamente naquela agremiação, eu haveria de encontrar um confrade sábio e generoso, cuja amizade eu teria o privilégio de usufruir. Amizade sólida e cultivada com benfazeja frequência, no mínimo semanal, na discussão de temas relacionados à nossa coluna jornalística dominical, NOSSA LÍNGUA, NOSSA PÁTRIA, bem como na troca de deliciosas amenidades. Minha mulher ficava embevecida ao escutar, vez por outra, no viva voz do telefone, entre uma e outra questões gramaticais, um dueto de barítonos cantarolando músicas tão bonitas e tão antigas e sentimentais.

Nossa parceria, durante todos esses anos, sempre envolveu inabalável confiança recíproca, o que nos permitia discutir com a maior tranquilidade qualquer tema, ainda que não houvesse total concordância entre nós.

Esse convívio com o Professor Scherner foi, para mim, extremamente gratificante e enriquecedor, por ser ele um dos derradeiros latinistas remanescentes, um homem de invejável cultura clássica. Com quem mais, hoje em dia, poderíamos dialogar sobre alguns aspectos dos Sermões do Padre Antônio Vieira? Com quem mais poderíamos comentar sobre questões relacionadas às declinações latinas?

Guardo, com muito carinho e uma ponta de vaidade, confesso, um episódio ocorrido, não faz muito tempo, na Academia Paranaense de Letras. Naquela manhã, eu fora o palestrante. O tema era referente a uma questão linguística bastante polêmica. Concluída minha fala, pediu a palavra o Prof. Scherner e, de pé, com extraordinária lucidez, fez uma apreciação crítica sobre o tema e sobre a palestra. Lembro-me perfeitamente do que ele disse. Afirmou que lhe parecera ver, à sua frente, no decorrer de minha palestra, três personagens distintos numa única pessoa, ou seja, eu mesmo: A parte processual (representada pelo expositor); o advogado, na defesa da tese. E, finalmente, o Juiz, que concluía o “debate” com uma sentença. A apreciação feita pelo Professor foi extremamente generosa, como sempre, muito além dos méritos do palestrante. Mas, de qualquer modo, constituiu um fato que marcou meu espírito com inefável doçura, reveladora de uma amizade incondicional, daquela que só quer o nosso bem, que sempre torce por nós.

Eu queria tanto fazer um mimo ao nosso querido professor, surpreendendo-o com a publicação do livro constituído pela coletânea de nossas publicações neste espaço, com o mesmo título, o qual ainda está no prelo. Mas, a Providência tinha outros planos para o mestre Scherner, com suas nove décadas de vida abençoada, levando nosso poeta para outras plagas, certamente mais tranquilas e com menos injustiças do que aqui, onde vivemos.

OBRIGADO, Professor! Obrigado por sua amizade. E, sobretudo, OBRIGADO por sua EXISTÊNCIA!