“Largue dessa ‘capa’ e deite no chão”. A ordem quase matou o gaiato de susto. Quem o rendeu era um sujeito baixinho, de cabeça grande e óculos que segurava um reluzente 38 colado ao corpo. O negócio foi obedecer e evitar corrigir o homem – se tratava de uma carpa, peixe que agrada a exigentes paladares.

Mas o furtivo pescador achou melhor não contestar. Tem muito vigilante que se acha policial. Pernambuco dizia que não era assim. Mas não conseguia esconder um sorrisinho de satisfação quando estava com aquela farda preta, coturno lustrado e o revólver no coldre. Pernambuco contava com uma ponta de saudade estas histórias para o pessoal da gráfica, onde trabalha atualmente.

A turma quis saber o que ele fez com o pescador. “Tomei o peixe e a vara de pescar dele e o dispensei”, disse. “Por que não deixou ele levar o peixe? Já estava morto mesmo”, questionou Kiko, que gostava de provocar o Pernambuco. Mas ele era inflexível com a determinação superior de não deixar ninguém pescar no lago da usina. Ainda mais depois que conquistou o direito de portar arma, aí o homem virou leão.

Como viu que Pernambuco não mordeu a primeira isca, Kiko foi mais ardiloso. Falou que manusear uma arma de fogo requeria grande responsabilidade e pediu para Pernambuco demonstrar como um profissional de verdade lidava com aquilo. O ex-vigilante ficou todo cheio. “Tem que cuidar com a trava”, disse Pernambuco. Começou bonito, mas quando passou à parte prática…

Pernambuco começou a dar um passos desengonçados, fazendo de conta que estava espreitando alguma coisa. A mão que imitava a arma, vinha colada no peito apontando para frente. Kiko não deixou por menos: “O que é isso? Parece uma galinha choca”. Pernambuco não gostou e foi tirar satisfações. Kiko perdeu a paciência: “Você tem que esticar o braço. Como vai fazer a mira?”, disse indignado. Pernambuco riu e em seguida assumiu um tom professoral. “Mas é muito burro! Se ficar com o braço esticado o ladrão vai chutar a arma”, disse, satisfeito com a sua ‘sacada’. E o Kiko a estas alturas já não se aguentava de rir.

“Mas aí atira, né! É para isso que serve a arma. Ainda bem que você largou dessa vida”! Pernambuco ficou meio confuso, mas não se deu por vencido. “Bom, eu aprendi assim e nunca ninguém me tomou a arma”. Nem a carpa!

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