De uns tempos para cá, Agenor vivia na maior dureza. Volta e meia “mordia” seus colegas em 10, 20 reais, o que desse. Dizia que era para o busão, mas gastava tudo apostando na Mega-Sena, Quina, Lotofácil, Lotomania, jogo do bicho, etc. O pessoal do Bar do Baiano onde ele frequentava nunca deixava de apostar, mas sempre naquela base da moderação. Preferiam investir em bolão porque se um dia a sorte grande viesse todos entrariam na grana.

Agenor queria ganhar sozinho. E por isso se quebrava e tinha que pedir grana emprestada. Mas quando apelou ao seu compadre Jeremias levou uma tremenda invertida.
Jeremias era mineiro, tremendo mão de vaca e em vez de pôr a mão na carteira, começou contar uma história para Agenor. Disse que antes de vir morar no Paraná, conheceu em Minas um sujeito chamado Arlindo. O homem vivia de fazer bicos e jogava direto na loteria. De tanto perseguir a sorte a grande, consta que um dia Arlindo sonhou que ganhou uma bolada na Mega-Sena. O sonho foi tão real que ele teve impressão até de sentir o cheiro daquela dinheirama.

“Mas ele ficou ou não milionário?”, perguntou o impaciente Agenor. Jeremias respondeu: “Ele descobriu o seu talento”. Depois do sonho, Arlindo parou de trabalhar. Os vizinhos queriam saber a razão do ócio, e ele disse para quem quisesse ouvir: “Fiquei rico. Ganhei R$ 23 milhões na loteria”, disse. Falou tão confiante que gostou da sensação. Sentiu uma espécie de poder, um orgulho escondido e decidiu que se apoderaria daqueles “milhões”.
Estava cheio de confiança e a primeira providência foi trocar de nome. “Ele achava que Arlindo não combinava mais por isso adotou ‘John Lennon’”, explicou Jeremias. O pessoal da cidade não quis contrariar um cara tão “rico” e embarcou na onda.

“John Lennon” decidiu também que tinha que se vestir melhor. Foi na loja mais cara da cidade e se armou de bons ternos e roupas sociais. Tudo fiado: disse que sua fortuna estava retida no banco porque fizeram uma aplicação financeira com o prêmio, o que lhe daria um polpudo rendimento, mas tinha que esperar até o final do mês para por a mão na bufunfa. “E eles embarcaram nessa? Mas são um bando de trouxas mesmo”, desabafou Agenor. Jeremias disse que não era por aí. “Você não está entendendo: o cara enfeitiçava as pessoas com a sua lábia. Ele acreditava tanto na sua mentira que os outros acabavam comprando como verdade”.

E de fato, o biscateiro Arlindo tinha dado lugar ao magnata John Lennon, o homem dos R$ 23 milhões. Como era “rico”, não quis mais andar a pé. Foi a uma concessionária de importados e comprou carro de doutor só no papo. Pediu prazo até o final do mês para pagar os R$ 200 mil pela camionete SUV.

Só que o carrão não combinava com a meia água onde estava morando e John Lennon tratou de comprar uma fazenda, com piscina, quedas d’água, tipo aquelas de novela. Jeremias disse que a ascensão de John Lennon foi tão rápida e exitosa que ele ficou preocupado com a segurança. Assim, contratou vários fortões para compor a sua guarda pessoal. Também constituiu assessores para intermediar seus negócios. Afinal, estava comprando (só no papo), mais uma fazenda e também uma concessionária de veículos.

Na véspera do final do mês, John Lennon ofereceu um churrasco em uma das “suas” fazendas ao seu séquito de empregados, incluindo os familiares. Comprou carne fiado e foi aquela festa. No dia seguinte, a comitiva se dirigiu ao banco para tirar a bolada. No trajeto, John Lennon teve um mal súbito, desmaiou e foi levado ao hospital. No jargão médico “ficou em observação”, mas pelo jeito sem vigilância. “Ele morreu?”, perguntou Agenor. “Uma ova”, disse Jeremias, explicando que John Lennon desapareceu. Pânico geral na cidade. Os empregados e credores foram ao banco atrás da fortuna para cobrir os prejuízos e descobriram tarde demais que nenhum prêmio de loteria havia sido pago na cidade nos últimos oito anos.

Agenor ficou pensativo e Jeremias quis saber o que ele achou da história. “Achei estranho ele ter escolhido se chamar John Lennon”, comentou Agenor. Para Jeremias, fosse o nome que fosse, o cara era um farsante psicopata. Agenor não se deu por vencido. “Eu acho que Bono Vox tem muito mais sonoridade”, sapecou.