O cara dava voltas na gôndola de cervejas do supermercado. A promoção era boa e o calor que fazia lá fora convidava para uma geladinha. O homem pegou dois fardos, mas em vez de rumar para o caixa foi em direção ao balcão de congelados, abriu espaço entre pizzas, hambúrgueres, etc., e enterrou-os ali. Depois cobriu tudo com os produtos para ninguém ver. Antes de partir, marcou bem o local para não se perder e foi embora.

Seu Juarez assistiu a tudo aquilo sem dizer palavra. Primeiro, é bom explicar que ele não é fiscal do supermercado. Ele é um cliente, mas não um cliente comum. Quando vê alguém tentando tirar vantagem sobre os outros ele trata de interferir. Seu Juarez esperou o homem da cerveja ir embora, foi lá retirou os fardos de latinhas do balcão de congelados e recolocou-as na gôndola.

Quando ele me contou esta história eu perguntei por que estava estragando a cervejada do cara. “Não tem nada que fazer reserva de mercado. Se ele teve o trabalho de esconder a cerveja, poderia muito bem ter levado naquele momento”, comentava com um meio sorriso de satisfação. Eu achava aquilo divertido porque sabia que ele não fazia de maldade. Era um jeito de expressar seu humor meio ranzinza e este era o traço interessante da situação.

Argumentei que talvez o sujeito tivesse ido retirar dinheiro no banco e só quis garantir que não ficaria sem o produto. Seu Juarez era irredutível: “Hoje todo mundo tem cartão, não tem necessidade de enterrar cerveja nos congelados”, arrematou.

Eu fiquei tentando imaginar o sujeito furioso revirando os congelados, sem encontrar suas preciosas geladas. Quem sabe ainda tomando bronca dos seguranças do supermercado, que não deixam passar nada.

O supermercado era a praia do Seu Juarez. Certa vez, enquanto aguardava na fila do caixa, notou que um casal passou as suas compras, mas deixou convenientemente na parte de baixo do carrinho uma caixa de leite, outra de cerveja e uma garrafa de vinho. Quando Seu Juarez percebeu que eles já estavam se preparando para ir embora, alertou um fiscal: “Eles pagaram por aquilo ali?”, questionou. Ao ser abordado, o casal fez cara de espanto, pagou pelas mercadorias e foi embora. “Esquecidos ou não, o sistema é pegue e pague”, afirmava o irredutível Seu Juarez.

Eu nem tentei defender. Ao invés disso sugeri que ele fosse trabalhar no supermercado. “Ah, não! Estou aposentado, mas me divirto com este pessoal”, confessou. Seu Juarez mora sozinho. Quem lhe faz companhia é um canário belga. Seu maior gasto é com plano de saúde, mas agora até disso está isento. Ele tem um compadre que é um renomado médico e este lhe abriu as portas do consultório para qualquer emergência.

Por sinal, a primeira vez que o Seu Juarez colocou este esquema para funcionar rendeu uma situação engraçada, só para variar. Ele chegou ao consultório, se apresentou para a recepcionista e disse que tinha uma consulta marcada naquele horário. A moça conferiu a agenda e estava tudo certo. Mas aí ela fez aquela pergunta que se faz em qualquer consultório médico: “Qual é o seu plano de saúde?” E o Seu Juarez respondeu no ato: “O meu plano é não pagar!”. A moça deu um sorriso amarelo e para evitar uma saia ainda mais justa, pediu licença e foi conversar com o doutor.

Demorou alguns segundos lá dentro, quando saiu aparentava estar encabulada. Logo depois o médico abriu a porta todo sorridente, se dirigindo ao Seu Juarez: “Como é que vai compadre, entre para cá. Pelo bom humor dele dá para perceber que está muito bem saúde”, disse o falante doutor. Depois deu uma piscada para a secretária e disse: “O compadre Juarez tem entrada franca aqui, viu Magali”. Ela sorriu, acenando com a cabeça.

Seu Juarez me contou estas histórias enquanto a gente degustava umas cervejinhas num “barzinho bem montado”, como ele se refere aos bons estabelecimentos. E que fique bem claro que as “cervas” não são aquelas que habitam os congelados dos supermercados. Faz algum tempo que não o encontro. Espero que esteja bem de saúde. Mas se tiver algum problema acho que ele não vai vacilar em “filar con,sulta” do seu compadre.