Lá pelas quatro e meia da matina, o velho Boboca chegava no jornal. Não falhava um dia, embora não fosse funcionário. Andava sempre alinhado: terno e gravata, chapéu e um cigarro no canto da boca.

Nunca soube o nome de fato do Boboca. Quem o chamava assim era o meu amigo Pedro e ele atendia. Boboca ajudava a intercalar o jornal. Naquele tempo, idos dos anos 1980, o jornal tinha vários cadernos de oito páginas e precisava ser montado manualmente antes de ser entregue aos assinantes e levado para as bancas.

Lembro de algumas coisas marcantes do velho Boboca. Além de se vestir como um perfeito cavalheiro, exalava um cheiro nauseante de cigarro. E a tosse merece um capítulo especial. Dava impressão que havia um pântano dentro do homem. Presenciei várias crises de tosse e pensava que depois da última ele deixaria de fumar, mas qual nada. No outro dia ele aparecia com maços de Hollywood nos bolsos.

Quase todos que trabalhavam na expedição fumavam, incluindo eu. Por isso não acredito na eficácia destas campanhas de choque que os órgãos de saúde fazem com o tabaco. No nosso caso, havia um exemplo vivo (ou mais ou menos), bem ali na nossa frente. Mas isso nunca nos fez cogitar desistir do cigarro. A gente via o quanto o fumo havia devastado a saúde do Boboca, mas se tratava de um homem em idade avançada. E sabe como é: jovem se acha invulnerável, contestador e cheio de razão.

Boboca morreu de efisema pulmonar e nós continuamos abraçados ao tabaco. No meu caso, por exemplo, logo quando consegui um trabalho com bom salário passei a fumar só Marlboro vermelho e usava isqueiro Zippo, daqueles niquelados. Tinha o kit completo: pedras para faísca, pavios sobressalentes e fluído. Todo este arsenal para garantir baforadas cinematográficas.

Tentei deixar do cigarro pelo menos três vezes, fiz uso até de acupuntura. Mas só abandonei o vício por iniciativa própria e sem ajuda de nenhum medicamento ou simpatia. Misteriosamente, o cigarro começou a dar ânsia de vômito. Era normal quando acendia até chegar na metade. Daí em diante chegava a sair lágrima dos olhos de tanta ânsia que sentia e aí tinha que jogar fora.
Mudei de marca inúmeras vezes mas não adiantou. Então decidi parar. Fui reduzindo a quantidade até chegar a um cigarro por dia e quando a carteira acabou, fim de papo. Meu precioso kit, incluindo o isqueiro zippo, dei para minha irmã para que desse fim. Não sei se terei vida longeva como o Boboca. Ninguém sabe o dia de amanhã. Mas se chegar lá, não abrirei mão de um belo terno. No lugar do cigarro, vou exigir uma taça de um vinho honesto.