Vovó vai gravar um CD

Naquele almoço de domingo, dona Maria Leocádia comunicou solene aos sete filhos à mesa.

– Vou gravar um CD!

Jorge, o filho do meio, passando a salada para a irmã caçula com um sorriso irônico, comentou incrédulo:

– E eu vou morar no Iraque!

Alguns domingos depois, dona Maria Leocádia reuniu novamente seus sete filhos e abriu o almoço com a novidade:

– Eis aqui o CD que acabei de gravar!

O filho (incrédulo) engasgou com o aperitivo, enquanto a matriarca da família Vaine, então com 84 anos, distribuía a pilha de CDs. Na capa, a foto de Maria Leocádia e o sugestivo título: “Relembrando o passado”.

Parnanguara, do Rocio, dona Maria Leocádia Miranda Vaine nasceu em 29 de abril de 1916. Naquele ano, os americanos inventaram o liqüidificador e o espremedor de frutas; Albert Einsten publicou sua Teoria Geral da Relatividade; e no Brasil foi instituído o Dia da Criança; na música, o violonista espanhol André Segovia começou a dar concertos; “O meu boi morreu”, cantiga nordestina (toada) de Luiz Moreira, foi gravada na casa Edison por Bahiano e Eduardo das Neves; o tenor italiano Enrico Caruso visitou o Brasil e se apresentou em São Paulo, interpretando a ópera Carmen, de Bizet; e o também italiano Guglielmo Marconi inventou o rádio.

Música e rádio, essas duas paixões, encantaram dona Maria Leocádia ao longo destes agora 88 anos tão bem vividos, além da paixão maior que ainda não se apaga pelo falecido marido Stephano Vaine, açougueiro na Rua Silva Jardim. O açougue do seu Stephano era famoso: ponto de encontro nos finais de tarde para assar rim, o aperitivo, e suculentas costelas escolhidas pelo mestre do ofício. À mesa da Rua Silva Jardim se reuniam Sérgio Prosdócimo e Janguito, pai de Joel Malucelli, entre outros que atestam ser da lavra de Stephano o corte de costela “borboletinha”, uma tradição curitibana.

A invenção do rádio marcou a data de nascimento de dona Maria Leocádia e levou aquela mocinha da cidade a cantar nas ondas curtas da Rádio PRB2, sob a batuta do maestro Antonello, enquanto Stephano restava em casa, embalando na voz da mulher o primeiro dos sete filhos, o engenheiro Oly. Mas quis o destino que a carreira da cantora do rádio só durasse até nascer Lia Terezinha, hoje música e pianista.

Era destino. A vida musical de dona Maria Leocádia morreu ali, para ressuscitar muitos anos depois, quando morreu Stephano Vaine, em 1984; e junto com ele o açougue da Rua Silva Jardim. Quem canta seus males espanta e dona Maria Leocádia redescobriu a música para amainar a saudade matadeira. Naquele almoço de domingo, quando ouviu que o filho incrédulo iria morar no Iraque, o projeto da cantora já estava em andamento: contratou pianista, Edelvito Cesar, harmonia, estúdio, produtora, uma bela capa com sua fotografia, o repertório escolhido: Lua branca; A deusa da minha rua; Nossos momentos; Bodas de Prata; Eu sonhei que tu estavas tão linda; A noite do meu bem; O amor é sempre o amor; Última inspiração; Lábios que beijei; Chuá-chuá.

O inimaginável CD “Relembrando o passado” teve 400 cópias no ano 2000, mais outras três edições nos anos seguintes. Já está pago, e muito bem pago, a renda sempre destinada a instituições de caridade. Com sua poderosa voz, dona Maria Leocádia também é boa vendedora: numa ocasião, botou o CD pra tocar numa viagem de turismo, a bordo de um barco na Baía de Babitonga, em Joinville, e ali mesmo vendeu uma boa partida.

Jorge Vaine, o filho incrédulo, é engenheiro civil especializado em Recursos Hídricos, com pós-graduação em Pádua, na Itália. Do velho Stephano, herdou a ciência da carne, seus cortes, seus assados, seus temperos, como nos tempos do açougue da Rua Silva Jardim,

Naquele almoço de domingo, quando dona Maria Leocádia lançou a pilha de CDs sobre a mesa, a cantora do rádio completou o diálogo interrompido.

– Jorge, meu filho, morar no Iraque não é uma boa idéia, pense bem.

Até quarta-feira; e o telefone para contatos com dona Maria Leocádia é (41) 233-2532.

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