?Curitibano é um bicho arredio?, afirmou sem mais nem menos um vizinho de balcão do bar, uma terra de ninguém onde qualquer um apóia o braço e se apossa do espaço para rever ou fazer amigos. Se enturmar.
Foi o caso do vizinho paulista, origem que se revelou quando ele pediu ?um chopes e dois pastel? e ouviu uma réplica à provocação.
– Você é paulista, presumo?
– Estou morando em Curitiba há quase um ano.
– Por que o curitibano é um bicho arredio?
– Não fala com os vizinhos, não aceita conversa e mal responde um bom-dia, boa-tarde, boa-noite.
– De onde você tirou esse conceito estapafúrdio?
– Tirei por mim mesmo. Tenho um vizinho que encontro todo santo dia no mesmo horário, na mesma esquina, caminhamos pela mesma rua e, por mais que eu insista, não consigo tirar um dedo de prosa com ele. É o próprio curitibano arredio.
– Tem certeza que ele é curitibano? Porque os números da cidade dizem que atualmente a maioria da população veio de fora.
– São tão poucos – completou um outro vizinho de balcão – que mal conseguem eleger um deputado. E o Rafael Greca de Macedo que trate de arrumar votos entre os paulistas, se quiser se reeleger.
– Tenho certeza absoluta. Meu vizinho é curitibano.
A conversa não prosperou.
***
Na semana seguinte o vizinho de balcão voltou ao bar e nós voltamos ao assunto, que a história do vizinho arredio suscitou curiosidade.
– Então? Conseguiu entabular um dedo de prosa com o vizinho curitibano?
– De jeito e maneira. O camarada é pontual. Encontro com ele diariamente na mesma esquina, na mesma rua, encosto para puxar uma conversa e o arredio não bota uma vírgula no assunto. Ele me olha de revés, apressa o passo e me deixa falando sozinho.
Nesse ponto, o vizinho de balcão abriu um parágrafo para voltar à ladainha:
– Curitibano é um bicho arredio!
De tamanha chateza, o assunto novamente não prosperou. Só aumentou a curiosidade e um novo capítulo se abriu no dia seguinte:
– Então? Conseguiu entabular um dedo de prosa com o vizinho curitibano?
– O camarada é pontual. Mesma esquina, mesma rua, dei bom-dia e engatei a falar sobre as calçadas de Curitiba. Pensa que ele se deu ao trabalho de tirar o olho do chão para concordar com a cabeça? Sei que curitibano é um injuriado com as calçadas da cidade. O arredio atravessou a rua e foi andar na outra calçada.
O paulista pagou a conta e encerrou o expediente com a cantilena: ?Curitibano é um bicho arredio?.
***
A tese se tornou fastidiosa e os retardatários não lembram que tudo começou em 1967. ?Curitiba, a fria?, é o título do polêmico texto do jornalista Fernando Pessoa Ferreira no volume três do Livro de cabeceira do homem, edição de Paulo Francis para a editora Civilização Brasileira: ?Os curitibanos são uma estranha tribo que se alimenta de pinhões, mas reside em casas iguais às nossas. A maior atração turística de Curitiba é o inverno, que começa em fevereiro e termina em dezembro. Nos outros meses, chove. Mas, durante o inverno o clima é excelente, principalmente para os emigrados da Patagônia ou da Sibéria?.
***
?Curitibano é um bicho arredio!? – voltou à carga o vizinho de balcão numa recente rodada de chope, quando resolvemos esclarecer de vez o mistério do vizinho curitibano.
– Vamos aos detalhes: onde você mora, em que bairro, em que rua?
– Moro nas proximidades da Rua Ubaldino do Amaral, esquina com Amintas de Barros, no alto da Rua XV. Meu vizinho mora numa casa das antigas, dentro de um terreno cercado por muros velhos, quase meia quadra. Convenhamos, se ele é o proprietário de um patrimônio daquele tamanho, praticamente no centro da cidade, só pode ser curitibano da cepa.
– Meu caro, seu vizinho curitibano não é um bicho arredio. É o próprio Dalton Trevisan. E vamos trocar de assunto!