Vida de patricinha

“Eu sou uma putinha” – confessa a parisiense Lolita Pille, nascida em berço nobre e patricinha assumida, que aos 17 anos escreveu Hell, um diário romanceado com direito a sexo, drogas e grifes.

“A duzentos por hora pelas ruas de Paris, onde não é bom andar quando estamos no volante, misturamos álcool com cocaína, cocaína com ecstasy, (…) De toda maneira o que fazemos é vergonhoso.(…) E daí? É você que paga a conta? Minha única preocupação é o vestido que vou usar hoje.”

Hell tem 18 anos, vive nos bairros mais exclusivos do oeste de Paris, mistura diariamente altas doses de álcool, ecstasy e cocaína, anda grifada da cabeça aos pés e faz sexo como você respira. Gasta fortunas com suas futilidades e ainda despreza os outros. Hell é personagem e nome do livro de estréia da bela Lolita Pille – é este mesmo o nome de batismo -, a sensação literária do momento na França.

Lolita escreveu Hell nos intervalos e mesmo durante as aulas a que pouco assistia no Liceu La Fontaine, freqüentado por cabeças coroadas de Paris. A história é simples: um caso de amor entre Hell e sua alma gêmea, o aristocrata Andrea, a quem ela vive procurando pela cidade pela placa do carro. É do encontro dos dois que o livro tira sua verdadeira face, um retrato amargo da geração ano 2000.

O livro dessa Lolita contemporânea é só um exemplar da atual literatura francesa. As confissões sexuais são o que de mais há nas livrarias da terra de Flaubert, que hoje escreveria alguma coisa do tipo “Bovary, as confissões de uma devassa”. Ou então Proust: “Em busca do atraso perdido”.

A transa literária começou quando a também francesa Catherine Millet vendeu 350 mil cópias de seu A vida sexual de Catherine M., já publicado no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil, onde há semanas figura na lista dos mais vendidos de Veja.

Neste último verão, a onda erótica continua. O mais recente é Eu gozei (J?ai joui), romance autobiográfico de uma Sarah, pseudônimo da autora, uma estudante de ciências políticas de Paris, que descreve sua longa jornada rumo ao primeiro orgasmo. Eu gozei está na lista dos mais vendidos.

“Parece que os escritores agora se sentem obrigados a freqüentar boates de trocas de casais para arranjar inspiração” – diz um crítico. É o caso de Didier van Cauvalert, autor “sério” e premiado, que acabou de publicar Reencontre sous X, sobre um jogador de futebol que se envolve com uma atriz pornô eslava em Paris e, com isso, mergulha no submundo pornô francês.

Por outro lado, um casal de escritores franceses acaba de publicar uma obra onde critica a onda atual como o auge do “fast food sexual”, com o detalhe: ambos estão nus na capa do livro, como em protesto contra a banalização do sexo na literatura.

Voltando ao leito de Lolita Pille, eis o roteiro dos personagens Hell e Andrea, na noite parisiense, a quem interessar possa: à noite, vão a restaurantes como o Flandrin (“um bar-restaurante com a cor local, vermelho-ferrari”, descreve Lolita), boates como o Queen, sempre nas áreas vips (“álcool a rodo, música alta, porque música baixa nos obriga a conversar e não há nada pra dizer”), bares como Man Ray ou o do Hotel Costes, ou em escapadas a bordo dos jatinhos dos amigos para Mônaco, Bali ou Rio de Janeiro.

Mas por que um desses filhos de milionários parisienses, “uma putinha” sempre a bordo de Porsches e Ferraris, resolve contar tantos podres?

“Porque a humanidade sofre. E eu sofro com ela.”

Então tá! E até quarta-feira!

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