O retrato da saudade: Fernandinho Bumbo, Anadir, Dalton e Lápis, nos
tempos de Bitten IV, sonhando com o sucesso.

A grande obra literária paranaense de 2006 não está nas livrarias. Encontra-se de graça, com graça, na internet. Depois de dois anos de pesquisas, o jornalista e escritor Adherbal Fortes de Sá Júnior enfim nos concede o prazer da primeira leitura de Vestido Branco, uma aventura musical nos anos 60 e início de 70 em Curitiba.

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Adherbal Fortes é um maestro do texto. E da memória. Com os primeiros acordes de Vestido Branco, a primeira grande composição de Lápis, ?bossa nova em estado puro?, Adherbal nos leva a bailar nas bocas da Rua Cabral, nos salões do Clube Curitibano, nos muquifos do Parolin, onde tocavam Waltel Branco, Gebran Sabbag, Alemão, Aírto Moreira, Paulo Moura, Raul de Souza, Brito, Fernando Montanari – numa breve nominata -, que sem eles ?teria sido insuportável viver tantos anos sob esse céu tão cinza, feneceriam as deusas da madrugada, os malandrinhos, os coronéis -personagens essenciais desta odisséia?.

O endereço na Internet onde Adherbal Fortes nos concede em capítulos tanto prazer é www.vestidobranco.zip.net; e o endereço onde a aventura começa é ?uma casa de madeira, situada em ladeira empoeirada do bairro das Mercês: ali, o menino Palminor, mais tarde conhecido como Lápis, apanha o violão e toca para a irmã Midi Vestido Branco. Tem apenas 15 anos, jamais estudou música e seu feito artístico mais notável até agora é atuar no regional da Rádio Marumbi. Como pandeirista?.

– Lápis!

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– Quem, eu?

– Você, claro, o Lápis.

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– Eu sou Palminor.

– Agora fica sendo Lápis. Preto e fino.

O primeiro emprego de Palminor Rodrigues foi nos Correios e Telégrafos e o ?chefe da época, cujo nome não ficou na memória dos depoentes, encarrega-se de achar apelido para o novo funcionário, que tem quase 1 metro e 80 e apenas 60 quilos?.

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Nos estúdios do Canal 12, Lápis acompanha ao violão o seu parceiro Paulo Vítola. Ao fundo, Boião (baixo) e o irmão Juca (bateria)

Para revelar o retrato musical dos anos 60 em Curitiba, Adherbal contou com uma equipe de pesquisadores e os seus reconhecidos talentos de editor de televisão, ex-cronista do cotidiano aqui neste O Estado do Paraná, biógrafo, autor teatral e dono de um ouvido que identifica qualquer nota dissonante, especialmente se o desafinado vem da Boca Maldita – nome do covil de maledicentes que tem o dedo de Adherbal. Fundamental ajuda o autor também recebeu do Banco HSBC, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o que foi ainda pouco para levar a obra às livrarias.

Lamentável, nenhuma editora ainda teve ouvidos para a orquestra da melhor música popular brasileira que Adherbal reuniu para este baile na história. Mesmo assim, na internet podemos nos deliciar com memórias das noites do Bar Palácio, ponto obrigatório dos músicos, compositores e intelectuais que vinham a Curitiba. Inesquecível foi a noite em que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso bateu ponto, saído de uma palestra na Universidade Federal, ao lado de um sindicalista chamado Luis Inácio da Silva, o Lula. ?Fernando Henrique revelou que Lula era a última palavra em matéria de revolucionário. Um líder natural, nascido longe da incubadeira do Partidão, amadurecera nas greves do ABC paulista e agora consolidava sua visão do mundo com a elite de professores da USP. Pelas mãos dos mestres, explicou FHC, ele estava mais do que lendo – estava interpretando para os companheiros o pensamento clássico da esquerda, a começar pelo de Karl Marx.?

– Querem ver? – perguntou Fernando Henrique com um ar entre cínico e maroto.

– Lula, dá pra explicar a eles por que o modelo político brasileiro fracassou?

E Lula explicou:

– Porque político brasileiro faz de conta que não sabe que a infra-estrutura econômica condiciona a superestrutura política e social.

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Lápis encontrou em Marcia a companheira de boemia.

Vestido Branco é um retrato apaixonado de um tempo apaixonante, com personagens que provocavam paixões: ?Márcia, ele a conhece quando ainda estava com Silvia. Era apresentadora do jornal do Canal 6. Um dia procura Lápis no Rio de Janeiro.

– Quero entrevistar você.

A entrevista termina.

– Quero ficar com você?.