Recentemente, o governador foi convidado e ameaçou comparecer a uma churrascada na Fazenda Cachoeira, onde a aftosa botou o rebanho na mira de fuzilamento. Roberto Requião deveria ter comparecido ao ágape. Eu iria junto.
Neste fim de semana, pensei em convidar o governador para tomar banho de mar em Guaratuba, Caiobá ou Matinhos. Só não me arriscaria a convidá-lo para um mergulho na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.
Seria um programa legal, no nosso litoral. Apesar das últimas chuvas terem causado uma queda pela metade do número de pontos próprios para banho, segundo o Instituto Ambiental do Paraná (IAP). Eu iria com um velho calção de banho e o governador, sempre elegante, com certeza não iria com aquela sunga vermelha com que o presidente Lula foi fotografado numa praia privada da Bahia.
?Praia privada?? Melhor dizer ?praia privativa?. Aquela orla onde Lula e dona Marisa foram descansar é propriedade da Marinha, e deve ser uma das poucas faixas do litoral brasileiro onde ainda não transformaram as praias em latrinas.
Laguna, no sul de Santa Catarina, por exemplo. No último final de semana, a TV Senado exibiu pela primeira vez o documentário Olhos dos anjos, sobre a incrível convivência, num caso único no mundo, entre botos e pescadores de Laguna. O belíssimo documentário foi realizado pela organização não-governamental franco-brasileira Homme Nature. Tem partes realmente tristes, deixariam Anita Garibaldi em prantos. Pescadores chegam a chorar ao contar que a poluição no complexo lagunar está reduzindo drasticamente a população de botos. Eram mais de uma centena. Agora, são menos de duas dezenas. ?Algumas mortes são tão sentidas que merecem velório e um sepultamento sob as areias da praia?, informa o jornalista Raul Sartori no jornal A Notícia, de Joinville.
No final de janeiro, me deparei com dona Maristela Requião em Balneário Camboriú, onde ela possui um apartamento que é herança de família. A diretora do Museu Oscar Niemeyer deve ter observado que aquele mar nem de longe lembrava uma marinha de Pancetti. Final de temporada, as águas lembravam O Grito, de Edward Munch, a expressão de medo e terror pintada pelo artista em 1893, e dona Maristela deve ter andado ao largo de uma estranha substância asquerosa que nas últimas temporadas tem pintado de preto a areia do balneário.
Entre as praias catarinas mais estimadas por paranaenses, Balneário Camboriú só perde para Jurerê, ao norte da ilha de Floripa. É uma orla de contrastes e divide-se em duas: Jurerê Internacional de um lado, Jurerê nacional de outro. A Jurerê com passaporte tem saneamento, água e limpeza pública próprios, a fiação elétrica é subterrânea, as casas nem mesmo têm muros. A Jurerê sem passaporte tem a cara do Brasil, com o mar cinza-cocô fazendo divisa com as águas límpidas do paraíso planejado e administrado pela iniciativa privada.
Domingo desses, o programa Fantástico passou em revista ao mares do sul e apontou a quase completa poluição das águas e areias de Itapema, a poucos quilômetros de Camboriú. Rafael Iatauro, futuro chefe da Casa Civil e que tem um belo endereço nas proximidades, deve estar se prevenindo com pomadas dermatológicas para o próximo Carnaval.
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O deputado Rafael Greca vai levar para a sua biografia quase tudo. Só não vai faltar uma frase de sua lavra, quando prefeito de Curitiba: ?Rio não caga!?. O ex-ministro do Turismo deveria ter estendido o aviso do Oiapoque ao Chuí: ?Mar não caga!?.
Peixe faz cocô, mas não joga a merda na casa de ninguém – completaríamos.
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Seria um programa legal, convidar o governador para um mergulho em Guaratuba, Caiobá e Matinhos. Indesejáveis ?frutos do mar? não são privilégio deste nosso nanico litoral.
O sertão vai virar mar, o mar vai virar banheiro. O que os olhos vêem e o nariz sente é que estamos transformando o litoral do Brasil numa imensa privada. Virá o dia quando, antes de entrar na água, haveremos de perguntar: ?Tem gente??.