Nossa casa é a sua casa, dier Lothar Matthäus. Fique à vontade, porque vem de muito a simpatia com que Curitiba tem recebido os alemães nesta mui leal e sincera Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.
Mais que simpatia, os curitibanos trazem o legado da cultura alemã no peito desde 13 de fevereiro de 1856, quando um anúncio do jornal Dezenove de Dezembro pedia uma ama-de-leite: "Porém exige-se que seja alemã.?
Os piás curitibanos cresceram fortes e bem felizes, graças as vossas Fridas e Helgas que não só emprestaram o seio de uma mãe gentil, como também nos apresentaram ao então desconhecido pinheirinho de Natal. Os natais de Curitiba nunca mais foram os mesmos.
Dier Matthäus, sua linguagem é a nossa linguagem. E ela não nos soa esquisita.
Quando os primeiros imigrantes aqui ainda arranhavam a língua de Camões, o pastor Otto Kuhr foi dar um longo bordejo às margens do Rio São João. Lá pelas tantas, o reverendo chegou ao fim da picada. Não enxergava uma criatura de Deus, até encontrar um italiano que lhe indicou a casa de Pai Fidêncio, ali distante meia hora no lombo do cavalo. Chegou era início de noite, e foi muito bem recebido.
Era uma casa de aparência bem pouco convidativa. Cavalos, gado e porcos andavam em torno, e estes até atravessavam a cozinha na maior descontração. "Logo vi que me encontrava em casa de um verdadeiro caboclo, mas um dos raros caboclos que ainda trabalham e possuem alguma coisa." Otto Kuhr descreveu também o cenário: Fidêncio de tamancos, parentes chegavam descalços e armados de facão e pistola, fogo dentro de casa, a fumaceira, chuva pelas goteiras. Aquela gente humilde não sabia o que era querosene, fazia velas de sebo no oco dos bambus, cordas eram trançadas em casa.
Chimarrão não podia faltar, à maneira tradicional, todos chupando da mesma bomba. No jantar, toucinho e charque assados no fogo, servidos pela dona da casa.
Conversa vai, conversa vem, eis chegada a hora de dormir e a grande surpresa: deram ao pastor Otto Kuhr uma toalha, onde estava bordada esta frase :
– Reinlichkeit ist das halbe Leben!
(A limpeza é a metade da vida!)
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Não se vexe com a linguagem, dier Matthäus. Este seu sotaque é nosso velho conhecido e sempre temos nos dado bem com ele, seja italiano, japonês ou polaco. Dizia o nosso escritor e mestre Wilson Martins – em seu livro Um Brasil diferente, leitura obrigatória para o recém-chegado entender o Paraná -, que "normalmente o estrangeiro tem vergonha de sua incapacidade lingüística, ela o diminui. Isso faz com que aumente sua timidez quando se trata de usar o português em público, ou perante estranhos".
Solte o verbo, dier Lothar. Não leve em conta "os ares de caçoada ou de superioridade dos brasileiros com que falam, ou que os ouvem, e que em geral pouco mais sabem, eles mesmos, de sua própria língua".
Qualquer um há de rir, convenhamos: no armazém, esta era a lista de compras de um alemão imigrante, naqueles tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça, ou vina:
– 5 tostón fum / 3 kitschen fósfor / 1 garrafón káscháss / 1 late kerosene / 2 par chinellen / 1 par tamanken für die Rosse / 3 meter brin für meine komadre Dona Chika.
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| No Centro de Rolândia, a estátua do guerreiro Roland. |
Dier Matthäus, o destino o trouxe a Curitiba, junto a uma das maiores e mais antigas colônias tedescas do Brasil. E agora o destino sutil e manhoso o leva a conhecer Rolândia, em sua primeira partida pelo Atlético Paranaense fora da Arena da Baixada.
É muita coincidência e um belo presságio.
Rolândia começou a ser povoada em 1932, quando os alemães se embrenharam em matas de terras vermelhas e formaram um núcleo que escreveria, em poucos anos, a espetacular história do Norte do Paraná.
No centro da cidade, ergueram a estátua de Roland: o guerreiro lendário que defendeu territórios, lutou por justiça e liberdade.
Caro Matthäus, sinta-se em casa.