Uma villa chamada mist

Fosse o cinema brasileiro mais rico, o notável advogado paranaense Laertes Munhoz seria o principal coadjuvante de um filme com todos os ingredientes de sucesso: um herdeiro milionário e sua exuberante mulher, famílias poderosas e suas villas numa pitoresca cidade do interior, ex-nazistas, uma misteriosa morte e as barras da Justiça.

Sábado, 30 de julho de 1949. Vítima: o industrial Ivo Renaux, 32 anos, herdeiro de um império industrial, cujo patriarca e avô, Karl (Carlos) Renaux, chegara ao Brasil em 1882 para construir o maior parque têxtil do Brasil. Suspeita do crime: Dagmar Sylvia Krieger, 23 anos, loira, alta, olhos azuis, curitibana da Rua João Negrão, ex-aluna do colégio Nossa Senhora de Lourdes e muita parecida com Evita Perón. Cenários: salões elegantes, clubes de caça e tiro, desfiles integralistas, bares, prostíbulos, praias e um Tribunal de Júri. Local da tragédia: Villa Renaux, palacete incrustado na encosta de um estreito e verde vale de Brusque, em Santa Catarina.

O roteiro a ser adaptado está no livro “Tragédia e Mistério na Villa Renaux”, do escritor catarinense João Carlos Mosimann. Engenheiro, pesquisador e escritor, o autor publicou esta minuciosa narrativa em 2002 e em 2006 rodou a segunda edição, atendendo pedidos de estudantes de Direito. A nova geração, na maioria, desconhece o cenário e o enredo do nebuloso episódio, onde, nos dias seguintes ao veredicto dos jurados, os jornais estamparam a “atuação brilhante e verdadeiramente espetacular” de Laertes Munhoz, o advogado de defesa de Dagmar Sylvia Renaux. O caso foi uma consagração para um dos maiores tribunos do seu tempo. Terminado o grande embate, o vitorioso professor de Direito Penal da Universidade Federal do Paraná declarou: “Esse caso foi, na minha vida profissional, um dos mais trabalhosos e de maior responsabilidade.

Quando há mais de um ano assumi a defesa daquela jovem senhora, pouca gente acreditava na sua inocência”.

49 anos depois da surpreendente vitória do professor Munhoz, a inocência daquela bela senhora ainda está envolta no mistério. “In dubio pro reo”, assim o júri decidiu. E, com a dúvida na consciência, até hoje a população de Brusque remexe o passado de uma das mais tradicionais famílias catarinenses. “O drama de Brusque deixou uma trágica interrogação”, deu no jornal da época: “Absolvida D. Dagmar, não ficaram esclarecidas as circunstâncias estranhas que cercaram a morte do industrial Ivo Renaux”.

Depois de comemorar o aniversário bebendo chope com os amigos, o rico herdeiro passou a noite num prostíbulo à beira mar, só chegando em casa ao raiar do dia. Embriagado, segundo Dagmar. Discutiram e ela foi dormir no quarto de hóspedes ao lado, ameaçando voltar para Curitiba. Só havia duas pessoas no segundo piso da mansão: marido e mulher. As três filhas do casal brincavam num parque. Os relógios marcavam nove e meia da manhã. O corpo foi encontrado sobre o leito. Deitado de costas, face serena, olhos fechados, boca entreaberta e rosto voltado para o teto. O cadáver estava coberto até acima do peito, as mãos sob o lençol, uma sobre o peito e a outra sobre o abdômen. Um revólver niquelado estava caído no chão ao lado e não longe da cama. Nas mãos, nenhum vestígio de pólvora.

O estampido, inicialmente atribuído à queda de um quadro, alertara duas empregadas que correram para a escada que levava ao pavimento superior. Cruzando os imensos jardins da Villa Renaux, nenhuma possibilidade de qualquer intruso cometer o crime. Crime ou suicídio? Pergunta o escritor José Carlos Mosimann ao longo das suas bem urdidas 200 páginas do mistério nunca resolvido.

Jovem, bonita e milionária, Dagmar Sylvia Renaux após o julgamento voltou a morar em Curitiba, ao lado do pai Germano Krieger e do irmão Ewaldo (Burda) Krieger. Casou-se mais duas vezes, morou no exterior e, com quatro filhos, dez netos e vários bisnetos, em 2006, aos 80 anos, residia no interior de São Paulo.

Presidente da OAB (PR) e presidente da Assembléia Legislativa do Paraná, Dr. Laertes de Macedo Munhoz faleceu em Curitiba no dia 21 de dezembro de 1967, aos 67 anos de idade.

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