Há duas semanas estava belo e faceiro assistindo pela televisão as atrocidades em um hospital de Bagdá, quando meu filho Pedro entrou em casa, retornando do colégio:

– Pai, fui assaltado ali no Batel!

– Deixa entrar o comercial e depois me conta.

Entra o comercial da loja Renovar.

– Então… você foi assaltado?

– Pois é. Dois malacos me cercaram, pedindo grana. Tipo assim, “passa aí grana ô, piá!” Eu dei cincão que tinha num bolso. Ele se afastaram, mas voltaram a me cercar: “Ô, piá: tu tem pinta de quem tem mais grana! Passa o resto, piá!”

– Você tinha mais?

– Tinha mais quinzão no outro bolso e passei pra eles. Até agradeceram, tipo “legal, carinha… valeu!”

– E você não reagiu, é claro!

– Claro que não! Vai que eles estivessem com alguma arma de destruição em massa?

– De resto, tudo bem?

– Tudo bem, menos pro Tiaguinho!

– O que tem o Tiaguinho?

– Tá inconformado: ontem foi ele a vítima. Levaram dele o tênis Nike, o relógio e o coitado ainda teve que voltar pra casa de meião!

– Então tá! Vai pra mesa enquanto o almoço ainda está quente!

Agora, 21 dias depois, caiu minha ficha: a violência da guerra é tamanha, e a televisão dela nos aproxima tanto, que as pequenas violências do cotidiano tornam-se banais. Diante de um mutilado piá de Bagdá, o piá curitibano sendo assaltado na vizinhança de casa é agora uma banalidade. Não importando se essas pequenas violências urbanas aconteçam diariamente, na porta de casa ou na porta da casa do vizinho.

Preciso ter uma séria conversa com meu filho: pela indiferença com que ouvi o relato do assalto, talvez ele esteja considerando essa guerra como um fato normal e que anormal é o pai dele.

PERGUNTA PARA ROBERTO REQUIÃO

Governador, o que o senhor vai fazer com tantas fitas na gaveta, horas de conversas gravadas com autorização judicial?

Aposto que serão doadas para o Museu da Imagem e do Som. Se acertei, bingo!

RECADO PARA DONA MARIA LÍDIA

Não tenho o prazer de lhe conhecer, dona Maria Lídia, mas fiquei sabendo que a senhora leu, aqui na coluna, a receita de polvo do Bar do Passarinhos e, de água na boca, no mesmo dia foi gulosa experimentar. Em lá chegando, me contou o garçom, a decepção: por aqueles dias, polvo só fundo mar. No mercado, nem a preço de lagosta. Agora, avisa e jura o povo do Bar dos Passarinhos, não falta polvo pro povo. O recado está dado e agradecemos sua audiência.

Então até domingo, Wilson, e não faça mais essa imprudência: se você me elogiar outra vez, algum maluco pode até pensar que algum dia eu venha a escrever um belíssimo livro chamado “Meu Tio Rosendo”.

Dante muito estimado, continuo curtindo muito seus textos de “em tempo”, três vezes por semana, em nosso O ESTADO. Sempre muito interessantes! Mas hoje (domingo, 5 de abril) v. foi ainda além – parabéns, velho, pelo magnífico texto (Você, que nasceu antes de 1970) de quando ( v. esqueceu…) fumávamos dois maços de cigarros Saratoga (lembra?) seguidos, começando a vomitar só depois do trigésimo nono cigarro; da bicicleta a 200 horários onde nos equilibrávamos caminho de Santa Felicidade. Só de pensar hoje nisto já sinto arrepios e severa vertigem… E comer uva debaixo do parreiral sem passar sequer uma agüinha?…/// Pô, envelhecemos ou envilecemos?/// Acho que só a primeira coisa – a nos indicar que agora, sim, morremos. Aquele tempo a gente era imortal.

Teu, com o sempre carinho do Wilson Bueno

Então até domingo, Wilson, e não faça mais essa imprudência: se você me elogiar outra vez, algum maluco pode até pensar que algum dia eu venha a escrever um belíssimo livro chamado ?Meu Tio Rosendo?.

continua após a publicidade

continua após a publicidade