Uma história real

O Paraná ainda está à procura de escritores para passar o seu passado a limpo. E não faltam histórias. O jornalista Wanderley Rebelo mostrou que está escrevendo a sua parte.

No Aeroporto Afonso Pena, em 1955, Flora (à esquerda) e o então
ministro da Agricultura Bento Munhoz da Rocha recebem a Miss Paraná
Vilma Sozzi (centro), que naquele ano tinha sido eleita Miss
Cinelândia, no Rio de Janeiro. (Arquivo de O Estado do Paraná)


Um ano depois de botar o ponto final na biografia de Ney Braga, na noite de terça-feira passada o jornalista lançou a biografia de Bento Munhoz da Rocha Netto. Preencheu mais um ?buraco negro? da nossa história. Os ?buracos negros? existem no sentido de que ainda faltam muitos a ser vasculhados.

Do fundo desse ?buraco negro?, quem se habilita a escrever a biografia de Moisés Lupion? O escritor Raul Vaz já se habilitou, porém escreveu uma obra em defesa, como se deduz do próprio título: ?Moisés Lupion, a verdade?. No caso de Moisés Lupion, só a verdade é pouco. A saga deste personagem é tão rica que vaza a própria história e alcança a divisa da ficção. Numa outra divisa, no Paraná a história do Contestado rendeu poucas letras e, num feito considerável, o filme de Sylvio Back. Dois ?buracos negros?, a Revolução Federalista – tem o filme ?O preço da paz?, sobre o Barão do Cerro Azul, o homem que pagou aos revolucionários maragatos para que não destruíssem Curitiba – e a Campanha da Legalidade, em 61, quando o Paraná levantou a voz: duas histórias no aguardo de quem se habilite a escrever. A revolução urbana de Curitiba, especialmente na década de 70, está à cata de escritor que conte não só do fechamento da Rua XV, como também da revolução cultural que o urbanismo agregou à auto-estima da cidade.

Na tarde chuvosa de quarta-feira passada, no Centro Cívico, dona Flora Munhoz da
Rocha com o escritor e jornalista Wanderlei Rebelo, por ocasião das homenagens prestadas aos 100 anos do ex-governador do Paraná. (Foto de
Roberto Corradini)

Wanderley Rebelo é um catarinense de Itajaí que veio tapar os buracos da história recente do Paraná. Respeitado jornalista político, formado pela Universidade Federal do Paraná, vinha tratando da vida de Bento desde os três anos de gestação da biografia de Ney Braga, porque – Bento era o estadista; Ney era o político – foram duas trajetórias paralelas que um dia se encontraram, se bifurcaram, e mesmo assim traçaram o desenho do Paraná moderno.

Bento Munhoz da Rocha Netto é nome de teatro, que aquela alma de artista mereceu. Fazer literatura no Paraná é como subir num palco pouco iluminado, depois de meses e meses de ensaios. Na platéia um minguado distinto público, na bilheteria o borderô não cobre o jantar festivo da estréia, no Bar Palácio.

Assim foi a performance de Wanderley Rebelo. Uma rotina diária que o fazia freqüentar a Biblioteca Pública do Paraná – criada por Bento – no período do almoço, cuidar da vida real e ainda varar a noite na pele do escrevinhador. O autor consultou milhares de páginas do arquivo pessoal do ex-governador, com a bênção da também escritora Flora Camargo Munhoz da Rocha, para comemorar os 100 anos do ex-governador como deve ser: na forma de um belo livro. Não um panegírico, uma biografia de santo, uma tese engessada de universidade ou uma história idolatrada, salve, salve!

Editada pela Imprensa Oficial do Estado do Paraná, a obra de Wanderley Rebelo é a vida real de Bento Munhoz da Rocha Netto, nascido em Paranaguá em 12 de dezembro de 1905, engenheiro pela Universidade do Paraná, professor, sociólogo, deputado federal, governador, ministro da Agricultura, autor de vários livros e de bem com a vida que se foi aos 67 anos, em 12 de novembro de 1973, na Curitiba onde ele ergueu o Centro Cívico.

Dona Flora Munhoz da Rocha, viúva de Bento, com este colunista.

De Bento e seu tempo, Wanderley Rebelo escreveu tudo. Ou quase tudo. Confessa que só deixou escapar uma cena irrelevante na narrativa, mas notável no contexto. Justamente o epílogo do caso de um copo na mão que estigmatizou aquele que era um dos mais preparados homens públicos do Brasil. Em sua última e derrotada campanha para governador, Bento foi fotografado com um copo na mão e a imagem correu o Paraná, sugerindo que o candidato bebia bem, muito bem.

Nem bem, nem mal, nem muito, nem pouco. Bento Munhoz da Rocha Netto não bebia. Wanderley comprovou a sobriedade em todos os depoimentos, mas deixou escapar uma cena intrigante da última viagem de Bento. Foi em Campo Mourão. Naquela noite de despedida, Bento bebeu cerveja com os amigos do sudoeste. Foi a saideira.

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