O deputado Rafael Greca estava em estado de graça, no fim de tarde cinza de sexta-feira, 4 de abril, quando anunciou em Nova Trento, Santa Catarina, o que pode vir a ser mais um milagre de Santa Paulina do Brasil: um grandioso projeto para a basílica em Vígolo, no fundo do verde vale de Amábile Visintainer. Para um ex-coroinha da Catedral Basílica Menor de Curitiba, não deve haver graça maior do que desenhar uma igreja de sua própria imaginação e fé.

Desenho solicitado pelo governador Luiz Henrique da Silveira, condutor da reunião onde foi apresentado o projeto, que contou ainda com a mais alta hierarquia política e religiosa de Santa Catarina. Além dos anfitriões: a comunidade neotrentina e as Irmãzinhas da Imaculada Conceição, a quem caberão reflexões e a palavra final.

Para reflexão – Esta reunião de sexta-feira não foi a primeira e não deve ter sido a última. No dia anterior, em Florianópolis, numa reunião em Palácio com as Irmãzinhas, o arcebispo dom Murilo Krieger e o governador, Rafael Greca prenunciou o que pode vir a ser um longo calvário. Diante do projeto que seria apresentado no dia seguinte, a congregação mostrou-se em dúvida e solicitou ao governador o cancelamento da reunião pública, em Vígolo, pois a decisão demandava mais reflexões.

Determinado a fazer da basílica um de seus maiores projetos de governo, âncora para um ambicioso projeto “Caminhos da Fé”, envolvendo os municípios vizinhos, Luiz Henrique da Silveira argumentou que o templo já se faz tarde e confirmou a audiência pública.

Diante de tantas reflexões, Rafael Greca chegou a Nova Trento minutos antes da reunião. Uma reunião de conclusão já anunciada, portanto, que aconteceu como se fosse um último suspiro, uma última esperança de conquistar corações e mentes.

O projeto – Junto com o arquiteto Rodolfo Doubek Filho, o ex-prefeito de Curitiba criou o projeto de desenvolvimento urbano de Nova Trento e o projeto arquitetônico do parque turístico e da basílica em apenas duas semanas, varando noite, pois era intenção de Luiz Henrique realizar a obra em apenas dois anos, com recursos do Governo do Estado e do Prodetur Sul. Orçado em R$ 14 milhões, transformaria a região de Nova Trento num dos mais belos pontos de turismo religioso do mundo.

A edificação de 21,5 mil metros quadrados, distribuídos em três pavimentos, comportaria 5.600 pessoas, sendo 3.500 mil delas sentadas, com uma fachada de 50 metros de altura, inspirada no duomo de Trento, na Itália, e uma torre lateral e separada – como são as igrejas italianas – de 90 metros de altura, também mirante servido por elevadores.

No piso abaixo do templo – no porão, digamos – um centro multiuso, gerador de renda para a manutenção do complexo. Contaria com auditório para 2.000 pessoas, livrarias, museu, lojas de artigos religiosos, restaurantes, rede inteligente de comunicação, enfim, exatamente o que hoje oferece o Vaticano para seus peregrinos. No subsolo, a capela das relíquias, a memorabilia da Madre e a cripta. Apresentando uma basílica para o terceiro milênio, Rafael Greca não foi modesto e impressionou, tanto do ponto de vista técnico quanto do significado religioso da arquitetura imaginada.

Rosário de lágrimas – Só não impressionou as Irmãzinhas, donas da palavra final quanto à aprovação do exposto. Notória e estranhamente, elas simplesmente pareciam ignorar o discurso, em nenhum momento observando o que se passava no telão. Irredutíveis, transpareciam estar ali apenas protocolarmente.

Depois da explanação, o desastre: fazendo questão de ressaltar que não compraria um só tijolo para a monumental obra sem a concordância da comunidade, o governador convocou a palavra dos presentes. Abrindo um rosário de lágrimas, o prefeito de Nova Trento, Godofredo Tonini, ensaiou a demolição dos sonhos de Greca e Luiz Henrique. Nem mesmo agradecendo a presença de tantas autoridades jamais reunidas na cidade, foi curto e grosso:

1- Quanto ao plano viário, Nova Trento não precisaria de uma estrada nova ligando Vígolo ao museu sacro de Azambuja, em Brusque, porque a cidade ainda ficaria isolada. Prioritária para Nova Trento, isto sim, é sua ligação com a BR-101, em direção a Tijucas, principal acesso dos peregrinos oriundos do sul, uma maioria, segundo Tonini.

(O prefeito de Brusque, injuriado, imediatamente retirou-se da reunião)

2- Tonini discordou ainda do novo projeto: “Não se pode misturar igreja com salão de baile”. Ou seja, o “porão” multiuso da basílica caracterizaria atividades profanas, antagônicas ao templo de Santa Paulina, na provinciana visão do prefeito.

Depois do tosco pronunciamento do alcaide, estabeleceu-se o caos. De um lado, bispos e freiras só não aplaudiram por humildade cristã. Por outro lado, a absoluta maioria quedou-se pasmada! Após um breve silêncio que podia ser cortado feito uma polenta, o governador observou, como se no discurso do alcaide estivesse lendo a vontade da congregação:

– Os recursos do Prodetur Sul estão em nossas mãos. Temos um projeto e a vontade política de construir a basílica. Agora, se não houver interesse, não tem problema, vamos aplicar estes recursos onde queiram recebê-los. Vamos aplicar em Blumenau, em Treze Tílias, em Pomerode, Balneário Camboriú, enfim, não faltam interessados. Foi uma pena. Parece que chegamos tarde com o projeto.

A partir daí, e durante duas horas além das previstas, o que se viu e ouviu foi o rosário de lágrimas. Ao largo do muro de lamentações, nem com a reza braba de Rafael Greca, autoridades e empresários, as Irmãzinhas pareciam arredar pé de um outro projeto anteriormente encomendado, que, pelo custo – R$ 18 milhões – e sem um poderoso parceiro, como o governo estadual, dificilmente terá uma única torre subindo aos céus.

Oficiosamente, o que se diz é que as freiras de Nova Trento estão submetidas resignadamente às ordens ditadas pela hierarquia de São Paulo, que há muito vem sendo assediada pelo governador Geraldo Alckmin, que já propôs a construção de uma grande basílica em Bragança Paulista. Para Nova Trento, as Irmãzinhas da Imaculada Conceição preferem algo muito mais simples e sua construção integralmente viabilizada com doações.

Se o projeto de Rafael Greca não foi alçado aos céus, Luiz Henrique da Silveira desceu aos infernos da decepção. Passava das 21 horas quando o governador serviu-se de galinha com polenta e bebeu do vinho local. Vinho que parecia azedo, pela expressão e palavras do ex-prefeito de Joinville:

– Infelizmente, não fomos compreendidos. Santa Paulina é testemunha de que fiz a minha parte.

Roma – Os curitibanos não degustaram da polenta e do vinho neotrentino. Finda a reunião, Greca tomou o caminho de casa, onde deve aguardar atento tantas reflexões. O ex-coroinha da Catedral Basílica Menor de Curitiba, título que ajudou a trazer para a cidade tricentenária, quando era prefeito – pretende levar o projeto ao Vaticano, para que a cúpula da Igreja de Roma também faça um julgamento desta que pode vir a ser a obra de sua vida

continua após a publicidade

continua após a publicidade