Um sonho, um pesadelo

“Índio bom é índio morto!”, dizia o general Custer, afiando o sabre. E digo eu, lendo as notícias da guerra: “O mais bondoso dos americanos reza o Pai-Nosso só até o ?venha a nós?!”.

Quem há de entender a cultura e a alma americana? Talvez o historiador britânico Eric Hobsbawm, o mais velho comunista ainda vivo, que se orgulha de nunca ter vestido uma calça jeans, apesar de ser um apaixonado pela cultura americana, o jazz especialmente, e ter lecionado em universidades americanas por vários anos. No seu livro Tempos interessantes (na lista da Veja e nas boas casas do ramo), ele dedica todo um capítulo ao Estados Unidos – de FDR a Bush -, cujo primeiro parágrafo podemos perfeitamente assinar embaixo:

n”Se todos os intelectuais da minha geração tinham duas pátrias, a própria e a França, pode-se dizer que no século XX todos os habitantes do mundo ocidental, e até mesmo todos os moradores em cidades em qualquer lugar do mundo, vivem mentalmente em dois países, o seu e os Estados Unidos da América. Após a Primeira Guerra Mundial, nenhuma pessoa alfabetizada em qualquer lugar do mundo deixaria de reconhecer as palavras “Hollywood” e “Coca-Cola”, e muito poucos alfabetizados deixariam de ter contato com seus produtos. Os Estados Unidos não precisavam ser descobertos: faziam parte da nossa existência.

n”Desde sua fundação, os Estados Unidos têm sido objeto de atração e fascínio para o resto do mundo, porém também de difamação e desaprovação(…). O país substituiu a pergunta “O que acha dos Estados Unidos?” por “Você é a favor dos Estados Unidos?”. Mais que isso, nenhum outro país espera nem faz essa pergunta em relação a si próprio. Como os Estados Unidos, após ter vencido a Guerra Fria contra a União Soviética, resolveu implausivelmente em 11 de setembro de 2001 que a causa da liberdade estava novamente engajada em uma luta de vida e morte contra outro inimigo perverso, embora desta vez espetacularmente mal definido, quaisquer observações céticas sobre os Estados Unidos e suas políticas provavelmente, mais uma vez, suscitarão reações de afronta.

n”Os Estados Unidos, pelo menos em sua vida pública, é um país preparado para operar com mediocridades, porque é necessário fazê-lo, e tem sido suficientemente rico e poderoso para poder fazê-lo.

n”A megalomania é a doença profissional dos vencedores globais, a menos que seja controlada pelo temor. Ninguém controla os Estados Unidos hoje em dia. Por essa razão, no momento em que escrevo, em abril de 2002, seu enorme poder é capaz de desestabilizar o mundo, e obviamente o faz.

n”Nosso problema é que o império americano não sabe o que quer e nem o que pode fazer com seu poderio, e tampouco conhece os seus limites. Simplesmente afirma que os que não estão do seu lado são adversários. Esse é o problema de viver no auge do “século americano”. Como tenho 85 anos de idade, provavelmente não verei sua solução.”

Até quarta-feira, antes registrando e-mail do querido amigo Jorjão, direto do front no Bar Botafogo, abrindo o bico em defesa dos “Passarinhos de Bagdá”, assunto de sexta-feira passada:

– É isso aí, Dante! E os passarinhos, como é que ficam? Fui dormir preocupado com eles na primeira noite de bombardeios. Passarinho cheira terremoto, não guerra! Estão indefesos. Precisamos protestar contra essa barbaridade. Sugiro uma passeata, ou melhor uma “penneata”, com todo mundo de piupiu de fora, saindo as 2:00 PM (entardecer no Iraque) do reduto dos passarinhos polacos no alto da Rua Princesa Isabel. Ornitólogos, uni-vos! O flipper que nos espere! Jorjão, desde já de passarinho de fora, digo, na rua!

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