Um rotundo não!

Se nove entre dez curitibanos se consideram urbanistas, é porque a cidade se orgulha de conviver com alguns dos melhores urbanistas do mundo, uma geração de arquitetos com a qual podemos fazer um paralelo com a seleção brasileira de 1970 do México. Um time de craques que fez a revolução urbana de Curitiba na década de 70.

Se Jaime Lerner tinha a majestade de Pelé, o arquiteto Rafael Dely jogava com a sabedoria e discrição de Tostão. Co-responsável pelo Plano Diretor de Curitiba, ex-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), diretor da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), secretário especial de Política Habitacional do Paraná, presidente da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), o também engenheiro Rafael Dely tem uma falha grave no currículo: deveria ter sido prefeito de Curitiba. Por uma dessas trapaças do destino, perdeu seu lugar na fila da Prefeitura por excesso de ética e a elegante timidez, características deste curitibano que inventou o sistema trinário de transporte coletivo, o nosso metrô de superfície.

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Em boa hora, e conectada com os humores e rumores da cidade, a Associação Comercial do Paraná vem de publicar uma série de depoimentos acerca da volta dos automóveis à Rua das Flores.

Pergunta a Revista do Comércio, editada pelo jornalista Nilson Monteiro: ?Para facilitar a revitalização da área central da cidade, o carro deve voltar à Rua XV??.

Na mesma edição, face a face, a revista confrontou as idéias dos arquitetos Rafael Dely e Salvador Gnoato. Da nova geração, Gnoato defende que ?dificilmente algo mudará na XV sem uma nova proposta de circulação restrita de automóveis no calçadão. (…) Sem um novo estudo de circulação de veículos, novos bares, restaurantes e outras modalidades de comércio não deverão se estabelecer nestas áreas?.

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Do alto de uma prancheta que viu nascer os primeiros esboços da Rua das Flores, Rafael Dely responde com um rotundo ?não!?.

?É um equívoco pensar que a reabertura da Rua das Flores, ainda que parcial, oxigenará as atividades do centro da cidade. Seria um retrocesso que jogaria o nosso centro urbano exatamente na encruzilhada em que se encontrava no longínquo 1972. O excesso de carros estava matando a condição de grande ponto de encontro da população de Curitiba.

Do ponto de vista social, o cerramento da Rua XV de Novembro resgatou o centro para as pessoas e reforçou a sua característica de ser o ponto de encontro. O que o centro de Curitiba anda precisando é de medidas que enriqueçam a providência de 72, com novas soluções criativas e viáveis e o contrário.

Do ponto de vista econômico, aprendemos que quem compra são as pessoas e não os veículos. É claro que o veículo, em certos momentos, torna-se um agente de animação e viabilidade, não que devamos baní-lo. Quando se fechou a XV esse cuidado foi tomado, implantando-se nas travessas e paralelas o parqueamento rotativo do ?Estar?, irrigando a artéria e possibilitando o estacionamento próximo do calçadão.

A viabilidade da Rua das Flores é tão patente que dificilmente se acha local comercial disponível. No entanto, isso só acontece ao nível da rua. Seria de bom alvitre – e isto poderia ser objeto de estudos do projeto Centro Vivo – criar mecanismos de incentivos para que os andares superiores das edificações ganhassem viabilidade para o uso comercial ou residencial, possibilitando o acesso e circulação de pessoas, ao contrário do que acontece hoje, em que essas áreas se destinam mais a depósito dos estabelecimentos.

Enfim, a rua deve seguir seu destino através da definição de sua pedestrinização pois, caso contrário, veremos desaparecer um ponto em que os curitibanos prezam como referência em seu cotidiano.?

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