Porque hoje é sexta-feira, miolo do feriadão curitibano, chega da chatice federal. O dia se faz propício para uma crônica da boemia, seus protocolos, personagens e um ensaio sobre a chatice.

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Existem várias manifestações de chatice, como também são inúmeras as espécies de chatos no mundo animal e vegetal, porque temos os chatos ativos, que se locomovem com os quatro pés e quatro patas – os mais perigosos – e que vegetam num canto em torno do próprio ego.

Os chatos são humanóides que têm uma única linguagem, com vários dialetos: o chatês, o chatíssimo e o chatérrimo. Mas, por incrível que pareça, dois chatos não se entendem. É um povo desunido e nômade. É fácil encontrar um chato com características genéticas universais: é um sujeito contando uma longa história numa língua que ninguém entende, ao lado de quem boceja, à esquerda de quem não entra.

Num bar você identifica o chato pela linguagem e pela dificuldade da espécie de grunhir certas palavras durante uma libação etílica. Depois da primeira dose, ele encontra imensa dificuldade em pronunciar certas palavras: indubitavelmente, preliminarmente, proliferação, inconstitucionalissimamente.

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Na terceira dose, o chato se identifica derrapando nas seguintes palavras: especificidade, substanciado, verossimilhança, três tigres.

Frases que são totalmente complexas e impossíveis de ouvir da boca de um chato, após três caprichadas doses: Posso dar a minha opinião? – É sua vez, depois eu conto a minha! -Chega, já bebi demais!

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Você reconhece um chato que bebeu demais pelos seguintes sintomas:

– Pés frios e úmidos: ele está segurando o copo pelo lado errado. Conselho: mande ele girar o copo até que a parte aberta esteja virada para cima.

– Para um chato em adiantado estado de chatice, as pessoas falam produzindo um misterioso eco: ele está com a garrafa de cerveja na orelha. Neste momento está se manifestando o palhaço que o chato pensa que é.

– O chato chama o garçom e diz que o chão está embaçado: ele está olhando para o chão através do fundo do seu copo. Assim, peça outra bebida e outro copo.

– Se queixa de que a parede à sua frente está cheia de luzes: ele caiu de costas no chão. Tenha piedade e coloque o corpo da besta a 90 graus do solo.

– Observe que o chato não só costuma se mover por entre as mesas, num vaivém contínuo, como também insiste que o chão também está se movendo: nesse caso, ele está sendo carregado ou arrastado. Este pode ser um momento de alívio geral e confira se estão levando o fulcro para casa ou – o que é pior – para outro bar.

– Ele reclama em altos brados que o local ficou completamente escuro: o bar fechou. Mande chamar um táxi para o ceguinho. O táxi chega e o chato se nega a andar num carro dirigido por um elefante azul. Com este sintoma, não tenha dúvida: peça ao elefante rosa que o leve ao hospital mais próximo.

– O bar se move muito, a fortíssima luz está cegando seus olhos, a música é muito repetitiva: o chato está numa ambulância. Possível coma alcoólico.

vvv

Uma das cenas mais dramáticas protagonizadas por um chato aconteceu há poucos dias num bar de Curitiba e há testemunhas da ocorrência: o indigitado derrubava mesas, copos, se locomovia sem rumo pelo recinto, quando se abancou na mesa de conhecidos boêmios de larga quilometragem na noite. A conversa, que até aquele momento tinha pé e cabeça, virou um pandemônio provocado pela mula sem cabeça.

Uma das vítimas à mesa deu basta na constrangedora situação numa só canetada. Chamou o segurança da casa, preencheu um cheque de mil reais e fez a encomenda:

– O cheque é para você matar esse inconveniente que está nos perturbando!

Sem nenhuma palavra, o segurança botou o cheque no bolso, mediu o chato de alto a baixo e se retirou, depois de ouvir uma última recomendação do contratante:

– Quero ver ele morto, mas não precisa ser agora. Pode ser amanhã, depois… não tem pressa!

O chato escafedeu-se, faz alguns dias que sumiu da noite.